Auxiliar de enfermagem

Um dia, levantei com disposição. Não era urgência, nem ansiedade, eu estava era determinado. No hospital, me cumprimentavam pelo primeiro nome e o café tinha gosto de dádiva. São pacientes terminais, com as cabeças e sobrancelhas desnudas. Quer saber? Ao se deparar com o precipício das horas, você tende a valorizar a existência do tempo. Isso significa que há esperança. Os parentes lamentam, eles carregam o peso nos olhos, engasgam o medo na garganta. É triste de ver. Mas depois, no cantinho da tarde, ouço o desejo dos pacientes, por mais um dia, um diazinho que seja. Nessa hora, não parece triste, pois eles clamam com sorrisos, agradecidos por mais um pouco de vida. Quando volto para casa, em um dia desses, sinto-me revigorado; e eu sei o quanto isso é irônico. Mas o que me incomoda é implorar a Deus, antes de me deitar, que na manhã seguinte essa mesma disposição me desperte; um diazinho mais que seja.

À sombra do vulcão

O velho desamarrou seu cavalo preso à árvore e disse vai, vai-se embora. Chegou até ali, você sabe que a essa altura já não há mais o que temer. Estamos em meados de 60. Acima, há o morro, do qual vem a corredeira. Aqui, ele disse, enquanto o rio desafia o tempo, eu completo mais um ciclo dessa vida. O cavalo não se vai, essa árvore também será testemunha e à minha alma, de tantas memórias cansadas… Sentou-se ao lado da cruz de Anísia, minha avó por parte de mãe, e esperou pela sombra do vulcão. Ele apontou no horizonte cobrindo o dia e sem pressa os olhos se dobraram. O procuraram por dias. Quando lá estive, não encontrei seu corpo, nem a cruz, mas a carcaça do animal havia ficado. Não foi por isso que eu havia ido, queria era ver o tão famoso rio e presenciar aquela história de vulcão. A única coisa que eu posso dizer agora é que me fui antes de escurecer.

Santa ceia

Apontou no horizonte como se descesse do céu. De súbito, o instinto deles eriçou a fome, enquanto o stilleto vinha acariciando a calçada. As canelas anunciavam a grandiosidade daquelas coxas, que cegavam à altura do sexo, estampado por um vermelho maduro. Já o vestido, soprado pelo vento, provocava as feras na arena. Não apenas os olhares ficaram petrificados. No ar, também os braços ostentavam rígidos suas refeições. Os olhos famintos mal tinham chegado aos seios, porque não é com pressa que saciam a cobiça. E os lábios provocantes esboçaram um risinho safado, culpa daquele vermelho malicioso. Com o nariz esculpido à altura de Deus – que, definitivamente, não é dali de cima que zela pelos seus –, ela os manteve famintos e religiosamente rendidos. A comida por fim esfriou, enquanto às costas desciam os olhares estanques, no chão. Ao soar do sinal, e então à labuta, voltaram ferozes.

A insustentável leveza do ser

Vi que meus pais iam sair, pois estavam arrumados diferente. Foi aquela vizinha quem ficou me cuidando, desta vez. Aí, logo que eles saíram, eu não entendi bem, só que ela entristeceu depois. Chorou e falava alguma coisa. Ela olhava pra mim, mas eu ainda não podia entender. Eu ri, pra ver se animava ela um pouquinho. Aí me pegou no colo e o rosto ficou grandão, tive um pouco de medo. Quando ela me cobriu todo na minha mantinha, ficou quentinho e não tive mais medo não. Deu até sono, pois balançava um pouco. A única coisa é que daí não enxergava nada e o vento foi apagando a luz. Senti um frio, inclusive na barriga depois, quando ela tinha me deixado. Sabe como? Foi legal a sensação, até que divertido. Mas acho que peguei no sono, enquanto ela brincava comigo; acho que sim. É que depois aí já não lembro mais nada, nem de quando meus pais voltaram ou de quando acordei.

A grande obra ou “ora bolas?”

Minha melhor história foi escrita quando, como se diz? Eu estava no auge, aquele momento em que o jovem escritor encontra o velho calejando, pois a vida, meu amigo. E antes de se sentar supõe-se ter os pés firmes. Por isso eu nunca me casei, sabe como é: boêmio e tal. Tive alguns filhos, é verdade; faz parte. Mas sem o peso do compromisso, me restavam as letras. Ora, a vida que eu sempre desejei. Pois bem, aquele momento em que se alcança a sabedoria enquanto ainda resta vigor, percebe? Como se natural, veio em consequência, não sei explicar como essas coisas acontecem. É assim, de repente você é um adulto e já está ficando velho. Bom, havia chegado o momento contingente de se produzir a grande obra. E ela foi engavetada, enquanto eu visitava as editoras. Não só, some um incêndio causado pela vela derretendo sobre a escrivaninha, segundo o laudo. Como eles identificam essas coisas, entre as cinzas? Não sei mesmo. A minha sorte foi estar de viagem, lá com as editoras. Passado tudo eu agora, eu podia, enfim, viver do aconchego, finalmente havia chegado o meu momento. De lá pra cá, a paz tem sido companheira e já penso em casar e tudo mais, sabe como é.

Protected: Sem palavras

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Pois não

Esta história seria sobre um sujeito que não aguentava mais o próprio trabalho, ter de acordar com aquela obrigação arrastando-o pelos cabelos até o banho frio de bom dia no elevador do térreo ao décimo terceiro em meio àquela gente falando a todas aquelas outras tantas que nem sequer desligar, esperar 5 segundos e religar o modem são capazes para resolver um simples probleminha que nem é de configuração, compreende? Mas quando ele sentou-se decidido a escrever, percebeu que aquela história não tinha relevância alguma, pouco distinta que era da dos colegas todos e. Num acesso repentino de gozo, dirigiu-se ao banheiro – no fundo do corredor, dobrando a esquerda, último sanitário privado – com a cabeça entre as pernas tapando a boca com as duas mãos dando risada e não se contendo e dando risada não se contendo. Antes de, enfim, crispar a testa, derrubar os olhos e lamentar a volta àquela vida sem graça da cabine número 13, fila 7A, próxima à janela que, se está calor, deixam aberta e entra um ventinho chato que espalha o cabelo ou, se está frio, fecham-na, mas não a persiana e então a claridade reflete parte de sua expressão torta e a nuca do 26 da fila 7B. E assim por diante.

Ampulheta

Levam-no embora sem você brigar, levantar a voz, falar em resposta… Só lhe resta, então, conceder as partes de sua vida que vão sendo tiradas enquanto você morre. A resignação é a sua maior conquista, aqui, e todo dia de amanhã é uma rotina, por não se poder fazer nada por ele. Esse nó, essa dorzinha que lhe incomoda a garganta, saiba disso, trata-se apenas das lágrimas misturadas às poucas esperanças, à espera que estão de romperem sutilmente seu corpo, quando você fechar os olhos e dormir no silêncio dos que se conformam.

Vazio

Se torna tão dolorido sentir, que o sentimento é aprisionado em uma garrafa e lançado ao mar para que, quem sabe, um dia se possa encontrá-lo com melhor destino. Mas, quando lançamos nós nessa garrafa… Que pessoas são essas, à deriva nesse meio de caminho, que não é nenhum lugar?

Estupidez coincidência

Entre a Conselheiro Laurindo e a Treze de Maio, um motoqueiro foi encurralado contra a lateral de um ônibus, quando tentava ultrapassar um veículo da marca Fiesta. A motorista desceu exasperada, com as mãos na cabeça dizendo “não pode ser, Deus do céu! não pode ser!” – até parecia o desespero de um particular, na certa que seria demitido. O motoqueiro não resistiu e morreu ali mesmo. No Hospital Evangélico, teve que dar a notícia à própria vizinha. “Glória, não sei como pode um negócio desses!, tantos motoqueiros no mundo e bem o Roberto!”. Glória não era idiota, há meses mal dormia desconfiada que estava da vizinha com o Roberto, afinal, saíam sempre no mesmo horário e ele não deitava mais tão perto quanto antigamente. “É hora de trabalho de todo mundo, amor”. “Eu chego cansado, benhê”. Nunca deu ouvidos e estava pra contratar algum tipo de detetive, se juntasse um dinheirinho. Nem foi preciso, e teve a certeza, na hora! “Essa maldita desgraçou a mim, a meus filhos e ao meu marido”. Mas não ligou pro ódio, nem riu da incrível coincidência ou estupidez do casal de amantes. Glória respirou enfim aliviada, pois agora podia, “Deus do céu”, dormir em paz.

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