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Da poesia

A Enaiê [1], dia desses, me perguntou se eu gostava de poesia. Uma pergunta simples, com a qual algumas vezes, ao longo de anos, me debati. Pensa que é fácil gostar de poesia? Reclamei pra Enaiê, durante uma de nossas aulas, daquelas pessoas (digo, colegas de classe que têm tanta inteligência que matam a própria sensibilidade, os coitados) que intelectualizavam suas leituras de alguns poemas. Nenhum problema fazer isso, aliás esse é um mandamento necessário, se a intenção é interpretar a fundo a obra poética de alguém. Porém, quando você nota que sequer a leitura prévia foi feita, aí fica difícil, não é mesmo?As vias sensíveis ficam espremidas, por culpa das veias racionais comprimindo as coitadinhas. Mal têm espaço pra respirar. Quem sai ferida é a poesia (e a própria pessoa, claro. Via de regra, ganha em conhecimento o que perde em sensibilidade).

Eu não estou nem aí se hoje em dia as pessoas riem de quem lê poesia. De fato se tornou exótico, geralmente sinônimo de alguém aéreo, sei lá (caricaturize como quiser, pode até rir). Mas o ponto é que a poesia amplia as margens do mundo, não por acaso alargando a nossa percepção dele. É um caminho de dupla abertura, sua pro mundo, dele contigo, revelando sempre um pouco mais da beleza que há em ambos. Por isso ela é inesgotável e fonte de sabedoria. E, digo mais, vai além de períodos históricos avessos. Hoje, todo mundo pode estar consumindo a literatura mais rasteira, ouvindo a música mais gratuita, assistindo aos pastiches mais descarados, não importa, nada disso afeta a poesia, que em toda a história do ser humano foi um gênero à margem mesmo. Sem juízo de valor, simplesmente é assim.

Obviamente não lembro quando comecei a ler poesia e já adianto que sempre li menos do que gostaria. Eu me irrito com propostas poéticas de vanguarda, na verdade sou um anacrônico em termos de linguagem, se pensarmos só nesse gênero. Eu gosto mesmo é de ler, entre aspas, coisas bonitas escritas por pessoas sensíveis. Ponto final. Por isso que, aos vinte e bem poucos anos eu caminhava com um livro de Helena Kolody para cima e para baixo (Helena Kolody, sacou?). Na época, estudante de Filosofia e ainda insistindo em perscrutar a realidade buscando desvendar algum mistério da existência. Por essa pretensão toda mesmo, pedindo o auxílio da poesia, com seu p maiúsculo, e digno. Na mesma época, Alice Ruiz, Paulo Leminski, Vinícius, Cecília, sem critério algum, seguindo os livros que tinha, que ia encontrando, um prazer poético me levando a outro, sem mapas.

Hoje, tenho percebido a cada dia que preciso ler mais poesia. Ao menos, todos os dias, nem que seja um verso, uma rima, duas palavras conjugadas procurando a beleza daquela junção. E, se você me permitir, tamanha a aparência de loucura do que vou dizer agora, tudo isso não tem vindo através das aulas de poesia brasileira que estamos tendo. Tem vindo de Guimarães Rosa. Mas daí o porquê eu só explico se me perguntarem, pois esse post já está longo demais e essa curiosidade já não cabe.