O direito à superficialidade, quando o mar é raso

Eu sou meio babaca. E olha que me esforço pra não ser assim. É que frequento lugares em que há muitos babacas, tenho alguns amigos bem babacas, também. Mas, calma, esses babacas todos à minha volta acabam me ensinando sempre a mesma lição: quando babaca não saca a própria babaquice, ostenta. E isso lá é lição? Calma. Ele ostenta na forma de conhecimento, intelectualidade, sabedoria, artimanha, malandragem, por aí indo. O pior é que, no fundo, no fundo, você sente uma vergonha alheia, sobre a qual ele diria: ao menos, sou isso, sou aquilo, não um babaca qualquer. Sabemos. Agora, a lição em si:

Um dia eu me dei conta de que sou apenas mais um réles número dessa gramática universal que é o mundo. Ok! A matemática é tortuosa: sou  ‘apenas’  ‘mais um’  ‘réles’, e não sou número mas venho pra somar como eles. Ao mesmo tempo que cada um de nós é exclusivo, também somos parte de uma multidão de gente assim. Não fique triste, o seu eu é especial, ele só não precisa ser assim diminuindo o eu dos outros. Ontem, falamos nos eus em gerais, certo? Por isso volto aqui pra tematizá-los me referindo aos babacas. Pois esses caras adoram o seu eu e tendem a alçá-lo a tão elevada potência que acabam se alienando. Taí a lição, a porcaria dos antolhos cegando a visão de longo alcance desses caras. Não seria irônico bem eles serem taxados de tapados?

A gente sabe, ao menos eu e você, que conhecimento, inteligência, sabedoria, essas coisas trazidas com várias pitadas de história e cultura, elas não fazem uma pessoa ser melhor. A Arte não torna alguém mais ético ou preocupado com a moral. Quem sabe até pelo contrário, já que é de sua natureza a edificação. Daí o babaca se sentindo superior por discursar a respeito do Belo. O ponto pra mim, nisso tudo, é a sensibilidade. Falei dela ontem, também. Geralmente, os babacas não são pessoas sensíveis, afinal a sensibilidade é uma abertura para ver o mundo, para ver o outro, e como sabemos o babaca só vê a si mesmo.

Por isso concluo que se eu me importar com a sensibilidade, quem sabe a babaquice fique longe do meu caráter. Quem sabe, eu pegue mais leve em relação às coisas, pense menos diariamente e deixe-me levar pela intuição com mais facilidade. Aquilo que em geral os babacas acusam nas pessoas normais: a superficialidade. Isso é assim do ponto de vista babaca, que tende a menosprezar a tranquilidade alheia, principalmente quando ela não vem com milhões de teses, argumentos, reflexões e por aí indo. Talvez esse raso das pessoas que não são babacas represente seu apego maior ao mundo. Não porque são ingenuas ou ignorantes (várias são, claro – mas, cuidado, subestimar os outros é um comportamento babaca), mas porque elas têm a capacidade de levar numa boa o que não deve ser complicado.

Tudo isso, bem ao contrário dos babacas insensíveis, que adoram complicar as coisas pra envolver nessa hora seu conhecimento enciclopédico e sua inteligância divina.  Um showzinho particular, em que o palco está tão iluminado pela luz  desses caras, que acabam não enxergando para além do tablado a platéia vazia.

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