Ler

Ontem, falei sobre pegar um livro com o olhar despido de conceitos prévios, não falei? Hoje, li essa entrevista de Raimundo Carrero, em que ele fala que “a leitura é um ato de amor, uma paixão”. Mais pra frente, respondendo a outra pergunta, aconselha a ler um livro várias vezes, “descobrindo os segredos, a intimidade do texto”. Ninguém melhor do que este pernambucano pra falar sobre tal intimidade, ele assina uma bela coluna no Rascunho (originalmente, no jornal Pernambuco, de Recife) sobre criação literária, além de ministrar oficinas sobre o assunto.

Ou seja, e já dando asas, pra descobrir o que as palavras dizem e dialogar com elas, há que se buscar a voz de um texto. Não é fácil, pois isso que eu disse é só uma metáfora, além do que os livros tendem a refletir mais quem somos, do que o que são. E nós nunca estamos prontos, não é mesmo? Uma segunda, terceira, quarta leitura, e assim por diante, sempre revela mais, por isso essa voz é difusa. O principal, ao meu ver, é sempre tentar ouvi-la, com sinceridade.

Lembro agora do David Foster Wallace exigindo essa mesma sinceridade, mas por parte do escritor. Eu gosto da sinceridade. Por mais piegas, clichê ou desprezada que ela seja ou que seja dizer isso. E se o ato de ler tem certa  relação com o amor, com a intimidade, então ele exige cumplicidade. Eu e você sabemos que pra ser cúmplice há que se ser sincero. Não tem como fugir disso. Sem procurar entender o outro, não se chega nunca à compreensão de si mesmo. E se a leitura liberta, isso não acontece sem entrega. De fato, como no amor, Carrero.

Cada um de nós pode escolher qual livro ler, mas não dizer o que ele revelará de nós. Por isso, talvez, essa experiência seja tão evitada. Por isso, e se você me permite o paralelo, as relações humanas sejam em sua maioria tão planas (ainda que haja um universo de distância entre escolher e ser arrebatado). E saber ainda que tudo isso, além de infinito, é cíclico! O que para uns signficará dádiva, a outros representará sentença. Mas aí cada um escolhe o próprio destino, no uso que faz de suas chaves.

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