Spoiler

É sobre o final de Lost e eu não sei o quanto há de spoiler no que direi, então siga por conta e risco. Mas serei breve, pois falar sozinho sobre a série não tem a menor graça. Portanto, o que trago aqui é apenas um comentário geral.

Ao encerrar a série, a primeira coisa que me veio à cabeça foi o quão óbvias as coisas são. Elas sempre foram assim, desde os primórdios, e os gregos sabiam disso. Mas eles sabiam também que, por mais gregos que fossem, eram simples mortais. Ou seja, não podiam fazer nada contra a natureza humana, portanto seguiram com ela e esse foi seu maior mérito. Usaram o que tinham, chamado de racional, para falar do que não podia ser racionalizado. A diferença nesse paradoxo? Eles sabiam que a ferramenta utilizada era uma  muleta, não as próprias pernas da questão. Por que falo dos gregos e não de Lost?

Estou concluindo um ensaio sobre O Desprezo, de Godard, filme que analiso baseado na Dialética do Esclarecimento, de Adorno e Horckheimer. Com isso, conclua sim que essa primeira coisa que me veio, após o final da série, na verdade é apenas a primeira de trás pra frente; saca? Quero dizer que somos contingentes, cada vez mais. Então nos é mais fundamental o agora há pouco do que o há anos atrás. Difícil manter a estabilidade nos dias de hoje, em que tudo anda tão fugaz e pueril, se essas palavras não forem quase sinônimas. Voltando ao ensaio, nele comento a cena em que as personagens de Fritz Lang, Jack Palance e Michel Piccoli discutem a realização de um filme (deixa o enredo pra lá, agora). O importante na cena é quando Lang cita que os homens criaram os deuses. A que eu somo: e que eles se vejam com isso.

Agora, Lost: o final da série era tão óbvio, desde a primeira temporada, que acredito que muita gente deve estar dizendo, neste momento, que ja sabia (na época, os produtores negavam essa obviedade, afinal falamos de uma Indústria, portanto ludibriar o consumidor é palavra de ordem). Pra mim, ao ver confirmado esse óbvio, duas coisas: 1) escolheram não o melhor final, mas o menos pior e 2) há sim lógica na trama da série, claro, porém na mesma proporção – x2 ou x3 ou x – em que há muito furo. Daí restam: uma enorme frustração aos que pensam logicamente e uma breve satisfação aos que são mais espirituais (pra não dizer místicos). Pra mim, resta a diversão que esse entretenimento provocou, ao longo dos anos, além das teorias todas que li a respeito de coisas que foram sendo despertas. Ao final, a série valeu pelas perguntas que provocou e as repostas que fui encontrando, independente do final que lhe fosse dado. Mesmo porque sabíamos, lá pelo final da segunda temporada, que a coisa toda cresceu além da conta e eles não conseguiriam administrar aquilo tudo.

Os gregos referidos lá em cima, trago-os aqui apenas pra dizer que, se não há um Deus (nem deuses), muito menos a Verdade, sobre o que for, resta não o relativismo alienante, mas sim a consciência sobre nossa finitude (do tipo cética e pessimista, não cristã e esperançosa). Mas, vamos combinar, isso é óbvio até demais. E por isso digo que, ao final, nada se comprova e tudo permanece como havia começado. Portanto, o meio do caminho é que interessa e é por ele que o mundo existe. Sou dessa religião, que acredita unicamente no presente, mesmo com memórias, mesmo com planos futuros. Porém, antes que o paradoxo dê-me uma rasteira, digo que esse presente não é sempre o mesmo, como a terceira frase faz subentender. Apenas que esse presente não possui medida, ele é intensidade pura, algo ligado à intuição, não à inteligência (nota de rodapé: Henri Bergson). Dizer mais do que isso foge à intenção desse breve comentário (breve? Sei).

Portanto, maior spoiler que esse não há, ao mesmo tempo que ele não revela nada. Cada um dirá ao outro qual é a sua história. Essa história será tão importante quanto outras bilhões existentes. Daí em diante, cada um escolhe se iludir (ou não) o quanto quiser, seja em relação a sua própria história, seja em relação às dos outros. Eis o mundo, que de tão óbvio, mas sem explicação (ou respostas), torna-se também tão instigante e nos faz continuar, independente de tudo que já foi dito – desde os gregos (para muitos como eu, o mesmo de sempre. Afinal, o conhecimento não é extensivo, como você pode perceber do que eu disse).

E, pra fechar com humor, pois só ele salva, o melhor final alternativo de Lost:

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