Descendentes

A um corpo de distância jaz o inevitável. Do lado de lá, o correto a se estar. Daqui, já sou culpado. Não importa o motivo, nem qual é o fato. Veste-se no corpo a personagem errada. Tanto pela esposa quanto pela amante, imagina então o resto do povo. Que não entende, não, eles não entendem: o vício da carne, a doença da alma, ferida mal curada cicatrizando o macho alfa. Mas, aí, extirpar o espinho atravessando a pele? Canalha por parte de traição, só. Veja você: faz sol e os pássaros cantam, só que lá fora. A voz estridente dilacera a paciência dele, tapa na cara pra começar a brincadeira e então o esbravejar da velha. Silêncio a soco é pouco, chuta a cara. Porta trancada, mas pé em cheio. Será o fim. Horas depois, o marido acusa, a família protesta, mas meu ombro desdenha. E o bebê? A complacência da lei e a inépcia da polícia (queira Deus nunca precisar deles) criam bichos soltos. Mas a prisão nesse caso será inevitável, porque a tv atiça e a opinião é pública. Fato tanto quanto o certo e o errado equivocados. Até que esse mundo tem salvação, conclui a apresentadora do programa matinal, com a mão sobre o ombro do marido. Aplausos das donas, seguras em casa. Justiça seja feita, então, doa em quem melhor satisfizer. Foi inevitável, o grito da sociedade ardeu na consciência do Estado. Até aquele ministro da amante se pronunciou. Esse mundo realmente tem salvação, não? Perpétua é pouco, queremos pena de morte. Junte-se ao coro, vai lá. Que seja feita a vossa vontade: chave de fenda abrindo o estômago e o resto da refeição enlameando o pátio. Agora, julguem isso! Outros dizem pobre coitado, mas agora é tarde. Do alto, a justiça grita: que alguém venha limpar essa sujeira! Já a Igreja protesta, mas Deus tem chegado atrasado. O noticiário explora, minha mãe em lágrimas. E o bebê? O bebê ele chora. No leito de morte, o céu é infinito. Há muito mais que certo, errado e equivocado. Porém, quem admite e de que lado?

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