Retrato do artista

“A algazarra das crianças nos folguedos irritava-o e suas vozes bobas faziam-no sentir ainda mais agudamente do que sentira em Clongowes quanto era diferente dos outros. Não queria brincar. O que queria era encontrar no mundo real a imagem sem substância que a sua alma tão constantemente baralhava. Não sabia onde a descobriria, nem como; mas um pressentimento o advertia sempre que essa imagem, sem nenhum ato aparente seu, lhe viria ao encontro. Haviam de ser encontrar sem alvoroço, como se já se conhecessem um ao outro e tivessem marcado uma entrevista talvez num daqueles portões ou noutro lugar mais secreto. Estariam sós, cercados pela treva e pelo silêncio; e nesse momento de suprema ternura ele seria transfigurado. Dissolver-se-ia dentro de qualquer coisa impalpável, sob os olhos dela. E depois então, num momento, se transfiguraria. Prostração, timidez e inexperiência abandoná-lo-iam nesse mágico momento.”

James Joyce, em Retrato do Artista Quando Jovem.

|

Quer comentar?

Campos necessários *

*
*