O paradoxo
do qual partimos

Aproveitando a leitura do ótimo artigo “Uma vida sem consolação” (de Jeanne-Marie Gagnebin, na Cult de Fevereiro, disponível aqui) e traçando um paralelo com o esclarecedor capítulo de “Os Problemas da Filosofia” (de Bertrand Russell, em 1912, disponível aqui), permita-me esse breve registro de um questionamento filosófico falido.

O que nos consola?

Todos, se pararmos para pensar cinco minutos que sejam sobre a vida, logo empacaremos diante do grande questionamento de todos os tempos, aquele sobre o seu sentido. Portanto, não é nenhuma novidade essa questão, como também até agora não há nenhuma resposta conclusiva a ela. Sabemos bem que a Filosofia não oferece respostas, não sabemos [1]? Bom, se pensarmos que importante é o percurso rumo a essa reposta inalcançável e a habilidade em não se deixar levar só pela razão ou ludibriar pela fé, ambas em diferentes extremos [2], então o que nos consola não havendo um ponto de chegada?

O ignóbil

Dia desses, eu estava de carro no belo trânsito das 18hrs e aproveitei o engarrafamento para imaginar as pretensões de felicidade que cada veículo conduzia. Apesar de todas as diferenças, somos tão elementares, certo? Algumas horas antes, eu havia assistido a um programa no Discovery sobre a ação de certos parasitas no organismo humano, que ficam latentes por décadas ou agindo sorrateiramente até agravarem irreversivelmente a saúde. Não preciso dizer o tipo de mal que eles causam e o quão engenhosos eles são.

O ponto é que a Natureza possui sua dinâmica sendo um complexo vivo que tende ao equilíbrio, com o Homem em busca da felicidade e os animais procurando apenas manter a própria espécie (ainda que o Homem ameace tal equilíbrio constantemente, mesmo sendo peça dessa engrenagem). Porém, supondo que seja essa busca da Natureza pelo equilíbrio o que faz com que diferentes filósofos procurem o sentido da vida, nem mesmo essa premissa oferece uma via possível ou passível de Verdade (com esse “v” maiúsculo temível). Pois sabemos que a Natureza, para se equilibrar, é capaz de maldades ignóbeis, afinal, por que os parasitas microscópicos agem daquela maneira engenhosamente danosa? Por que os seres humanos se destroem do modo como vemos todos os dias, ameaçando sem piedade a felicidade da própria espécie? E, como, em meio a todo esse mal existente no mundo, há também e na mesma proporção tanta beleza?

A beleza e a dor

Eis só até onde eu gostaria de chegar: a dúvida. Ao final, sempre ela, essa deusa fugidia, miríade de questionamentos implícitos em uma única pergunta: qual o sentido de tudo isso? E se você parte em busca da resposta, evitando os caminhos extremos da racionalidade e da fé, não há como chegar a algum lugar no qual já não estejam lhe recepcionando, lado a lado, a beleza e a dor da vida, como duas inimigas de mãos dadas.

Se essa contradição lhe surpreender, será porque está sendo racional demais. E se isso não lhe surpreender, será porque acredita em coisas demais. No fundo, no fundo, há que se conviver assim, com a constante contradição, seja qual caminho se adote. A beleza e a dor são inconciliáveis, porém convivem como condição básica da vida na Terra. A única certeza a que se chega, quase como um ponto passivo entre os filósofos, é a respeito de nossa finitude, de nossa incapacidade, seja em abarcar tudo, seja em suportar tanto. E esse não é o sentido da vida, longe disso, esse é apenas o começo do percurso.



notas:
  1. “O valor da filosofia, na realidade, deve ser buscado, em grande medida, na sua própria incerteza”, Russell []
  2. leia a reflexão sobre as duas características da Aufklärung, no artigo de Gagnebin []

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One Trackback

  1. por nada pessoal » Luz conquistada em 08/03/2010 às 12:38

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