Ex

Essa doença dos sem atitude, a melancolia. Engoliu a seco. Ventinho das seis eriçando a pele, o sol deflagrando nuvens. Ela chegou primeiro, vestiu avental, touca, pessoas em cinco minutos a água fervendo, até o final da tarde. E foi embora. Mas não, não pense você que à casa do ex-marido. Desta vez, nem pensar. Mulher que ainda dá para ex aceita a solidão, nem pensar. Ele sempre fora o covardão, manja o tipo? Palito no canto da boca, havaiana pregada a rebite, mão pesada nas costas da empregadinha dele. Um frouxo. Na obra, salário em bebida ou motelzinho barato. Ela também sempre fora uma covarde, que não se faça de vítima. Só que hoje chegou a casa sem o suor do dia, da foda doída e a palma marcada, do nem sequer um banho depois, aquele gosto de pele suja escorrendo à garganta, o prazer dele grudando nas costas e a dor no estômago de fome. Tomou um banho, preparou o jantarzinho modesto e alimentou o corpo coitado. Rasgou o jornal à altura dos classificados, pois amanhã também não volta para a lanchonete. Vida nova.

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