Do banal ao estético
ou vice-versa

Resenha crítica do livro
Inverdades

(7 Letras, 2009, R$ 22)

de André Sant’Anna

Imagine se o atacante Ronaldo não fosse o “fenômeno” do futebol ou se Marilyn Monroe tivesse vivido algumas boas décadas a mais. Já imaginou isso? Agora, pense em Duke Ellington e Miles Davis conversando sobre música, no cenário óbvio de um cemitério. E então? Tem também a Sandy se despedindo da família através de uma singela carta reveladora. Ou Roberto Carlos, Erasmo e Tim Maia como três colegas suburbanos sem sucesso, além de George Bush se embebedando num pub inglês. Bom, a essa altura você já percebeu que por aí vai, através de mais nove contos de sinopses como estas.

Pois esse é o universo ficcional de “Inverdades” (7 Letras, 2009, R$ 22), quinto livro do controvertido André Sant’Anna, no qual o escritor mineiro joga com as possibilidades da ficção e vai do banal à criação estética. Ou seria o contrário? O certo é que nem precisamos ir até o conto que melhor responde essa dúvida: “Gases”. Afinal, desde “Lula, lá, de novo”, que abre o livro, já se nota com que fio o autor irá costurar suas histórias.

Neste primeiro, dividido em duas partes, a personagem que começa como o Presidente da República passa ao mero Lula, deixando de ser simulacro para se tornar analogia, sem perder em referencialidade. Como é que é? No conto, o Presidente da República, do primeiro mandato, é também o Lula, do segundo, assim como ambos são o bem conhecido Luiz Inácio Lula da Silva, aquele da realidade. Tudo muito óbvio, eu sei. O ponto é que, de saída, o escritor já está mandando um segundo recado.

O primeiro estava na epígrafe da obra, em que ele diz que “qualquer semelhança com fatos reais, neste livro, é mera coincidência”. Agora, com essa primeira história, a qual ecoará lá na última, “Fim”, o autor está não só fazendo piada a respeito de coincidências e correspondências inevitáveis, mas também avisando que será no âmbito dessas relações óbvias e superficiais que o livro imergirá.

A que “Inverdades”, então, o título nos remete? Procuro, na sequência desta resenha, apresentar o cenário em que a resposta desta pergunta atua. Enquanto o escritor maneja cenas triviais e até íntimas do cotidiano de suas personagens, desvendamos sob o véu das banalidades reflexões interessantes sobre a vida de personagens, personalidades e pessoas.

Representação

Essa ambivalência da representação, que se pode notar já no primeiro conto, ela não é posta ensejando tese ou oferecendo moralidade. O livro é ao mesmo tempo despojado e rico, mas, antes de tudo, despojado. Parte de personalidades conhecidas as tornando meros signos lingüísticos dentro do espaço literário, tanto pela depuração da escrita de seu autor quanto pelo conteúdo de suas vidas ficcionalizadas. Os papéis se invertem, porque as personalidades são deixadas de lado e as personagens entram em cena. O que seria óbvio em uma obra de ficção, aqui ganha um status diferente, devido à relação que a obra nutre com a realidade. Portanto, não é o poder de representação que é fundamental, mas o que depreendemos dele enquanto recurso. E Sant’Anna logra êxito ao dissolver assim a fronteira entre ficção e realidade, estabelecendo um caminho curto entre a leitura e sua intelecção, devido a esse jogo com o real ao rechear o livro com personalidades conhecidas de todos nós. Esse conhecimento compartilhado é o que nos leva a aliar os mundos possíveis ao mundo real e partilhar com o autor de seu jogo literário.

Assim, não nos causa estranheza a carta de Sandy aos pais, em “She’s leaving home”, pois o contexto para compreendê-la já está posto de antemão. Esse pressuposto, evidente neste conto, se torna peculiar quando notamos as diferenças de opiniões entre Duke Ellington e Miles Davis, a respeito de ritmo e harmonia. Um conhecimento de mundo mais amplo torna “Bitches brew” mais interessante, porém não é pré-requisito. Assim como não é para entender o quão dolorosa é a batalha travada por Charlie Parker, ou por Jimi Hendrix, com o chamado “algo” misterioso, a busca incessante e por vezes angustiante que muitos artistas empreendem no caminho da criação.

Todas as histórias são conhecidas ou reconhecíveis, com seus mundos possíveis tangenciando os nossos, devido a esse conhecimento compartilhado do qual o autor toma posse e resignifica, mergulhando na ambivalência da representação e explorando tanto as possibilidades quanto suas conseqüências imaginárias.

Estilo

Tudo isso, com Sant’Anna lançando mão de alguns recursos, através dos quais reconhecemos seu estilo. Um deles é a repetição, que, segundo ele, em cada livro possui uma função diferente, e que em “Inverdades” contribui para a dupla face da representação que o escritor empreende. De um lado, esse recurso tipifica as personagens até torná-las símbolos densos. De outro, as artificializa de modo a usá-las como elemento de texto: “o jato de ar que saía desse exaustor entrava por baixo do vestido de Marilyn Monroe, levantando o vestido de Marilyn Monroe. Marilyn Monroe tentava impedir…”. Ora, Marilyn Monroe se torna uma figura de linguagem, traço lexical funcionando como uma nota que se repete em toda a melodia do conto. Essa artificialização a planifica, mas no contexto dá-lhe densidade, tornando a ambivalência não apenas um elemento da linguagem do jogo literário, mas também um de seus temas: a personagem Marilyn e sua história e a pessoa Marilyn e seu mito. São planos ficcionais que se interpenetram, pois no conto acompanhamos a personagem Marylin que ganhou história de vida, diferente da realidade, a qual legou a Marylin Monroe o papel do mito que todos conhecemos. A ambivalência opera como inversão entre o real e o ficcional, pondo em questão o sentido da representação.

Outros traços estilísticos do autor remetem a uma linguagem que bebe da ficção cinematográfica. Em tal medida que, em um momento ou outro, percebe-se a relação estreita com roteiros cinematográficos, os quais procuram apontar o essencial para a ação que a cena desenvolve, permitindo ao diretor preencher os espaços e ampliar o período entre um corte e outro. Tal economia de palavras e descrição ágil ajusta o foco da narrativa, contorna o desenho da cena que o narrador deseja mostrar, agindo com eficácia em nossa percepção já familiarizada com esse tipo de linguagem visual. É como Luciana, no conto “Simpatia pelo demônio”, esbarra em Mick Jagger, desviando o foco da ação e mudando o rumo da história, como um plano sequência que sofre um corte. Esse recurso aparece em outros momentos do livro, contribuindo para o ritmo do enredo e conduzindo a leitura de modo preciso.

Versus experimentalismo

O estilo de Sant’Anna, portanto, é evidente já na superfície de cada conto, para que todos notem que ele, talvez, não seja um bom contador de histórias, no sentido mais tradicional, aquele que privilegia mais o enredo do que a linguagem. O que seria uma bobagem, enquanto crítica, pois em que manual literário uma boa história só pode ser contada neste sentido tradicional?

Segundo ele, alguns críticos o acusam de escrever mal justamente devido a esse estilo. Ora, podemos não gostar de ler histórias através da linguagem com que esse autor conta as suas (particularmente, eu não gosto), mas não será isso que o fará um contador menos hábil. Tal estilo deve-se a diversos fatores, tanto na trajetória pessoal do músico, escritor e publicitário, quanto devido ao modo como ele enxerga a literatura, principalmente em contraste em relação a seu pai, o também escritor Sérgio Sant’Anna. E percebe-se, sem que ele precise responder a isso em alguma de suas entrevistas que li, que seu intuito com a linguagem não é acomodar histórias em um formato tradicional, e sim buscar uma maneira diferente de contá-las, uma maneira própria.

Eis como ele arrisca algo diferente (ainda que bebendo da fonte agrippiniana), mas sem cair num experimentalismo formal que possa dificultar a leitura de suas histórias. Pelo contrário, pois o escritor não cai no equívoco de sobrecarregar seu leitor com exercícios literários ou caçoar de sua sensibilidade facilitando o enredo. Assim, ele consegue situar seus contos entre o risco de uma transgressão e o lugar estável do óbvio, sendo talvez esse equilíbrio seu maior mérito.

Atualmente, com a sociedade cada vez mais acostumada ao simples e direto, penso ser um êxito um autor conseguir usar desse expediente para se comunicar com seus leitores. Pois Sant’Anna provoca reflexões ao mesmo tempo em que entretém, sem necessariamente apresentar uma literatura fácil, a despeito de sua aparente simplicidade.

Humor, Frustração e Algo

Simplicidade que esconde certo cinismo e algum sarcasmo, ambos embalados por um humor que, não raro, provoca sim boas risadas. Algumas vezes, a risada pela risada: “- Como vai, Miles? – Morto, como sempre, Duke”.

Mas, como não poderia deixar de ser, nessa linguagem insinuante o humor pode ser negro, a ponto do sarcasmo de seu autor tornar ainda mais aguda a crítica que está sendo feita: “Justus, para quem Justus era o troço mais importante vivo sobre a Terra, reclamou para Adriane (ou seria Eliana?): ‘Quem esse João Gilberto pensa que é?’Adriane (ou seria Eliana?), para quem a carreira artística (!!??) era a razão de sua existência, não reclamou de nada e continuou a conversar animadamente com as pessoas importantíssimas que estavam na mesa patrocinada por Justus.”

São as espécies de humor com as quais Sant’Anna tempera os contos, que explicitam o contraste entre o mundo das pessoas comuns e o das celebridades, levando a um extremo que chega a anular essa diferença, como quando lemos, em “O povo estava todo lá,” um bando de gente famosa num momento qualquer do Carnaval, aliás, quando “a letra do samba-enredo da escola de pequeno porte contava a história, a vida e a obra do acadêmico Paulo Coelho.”

O autor também, por vezes, expõe com dureza a face íntima de suas personagens, seja o Ronaldo que despreza sua vida ou a Marilyn bem sucedida que às vezes deseja ser só aquela do ventinho em baixo do vestido. A frustração é um tema caro e o desprezo à própria existência uma de suas conseqüências evidentes.

Isso está na raiz da despedida de Sandy, que parte em busca de algo mais para si, sugerindo aos pais que dêem maior atenção ao irmão Junior, pois ele gostaria de ser baterista. A alegoria maior desse desfile fecha o livro, com “Fim”, quando a personagem Luiz (Inácio? Lula?) retorna ao palco. Mas não sem, antes, Sant’Anna ir até o fundo, explorar o “algo” misterioso que mergulha Charlie Parker no vício ou o que incita Jimi Hendrix, “aquele negócio novo que ele tinha experimentado”.

Assim, o autor tematiza também a própria criação estética e, novamente como lá no início desta resenha, nem estou me referindo ao evidente e explícito “Gases”, um conto esplendidamente construído, em minha opinião.

Criação Estética

Todos os contos, como até já apontei antes, não importa quão complexos e temerosos sejam seus temas, todos eles vestem uma roupagem leve, com um bem humorado jogo de construções e ágil como um tiro certeiro no esforço de leitura de qualquer leitor.

Que a aparente descontração, simplicidade e rapidez com que ele trata de questões complexas não seja confundida com descaso ou superficialidade, afinal o autor até brinca sobre essa questão, no meu entender, como quando contrapõe “eco dos infernos” a “ar condicionado”, referindo-se ao “algo” no ar que João Gilberto estava sentindo e que o incomodaria na hora de subir ao palco. E isso talvez se deva porque a criação, para uns, pode ser uma condição existencial, para outros, trabalho profissional. Algo nesse sentido, como quando, em “Bird e algo”, Charlie Parker se refere a Dizzy Gillespie não tendo o “algo”, pois não precisava de “algo” para compor.

O que o autor põe em evidência não é a dificuldade do trabalho artístico e sua complexidade intelectual, e sim o fato dele ser ambivalente também, assim como suas histórias o são. Estas possuem um contraponto, bem como suas personagens, bem como todas as personalidades, bem como nós.

Veredito

André Sant’Anna, desse modo, nos oferece um livro curto e ágil, repleto de humor e o cinismo típico da literatura contemporânea. Talvez levando a exploração desse cinismo além, talvez o empacando numa abordagem individualista. Ele pode estar sendo irreverente, mas buscando pôr em termos claros e simples o complexo e difícil, sem desprezar nenhum desses lados, planificando-os para que sejam adensados pelo leitor. Ou tal planificação pode ser lida como uma mera banalização, representando o elo mais pueril que se tem com a realidade e seu significado, desprovendo assim a leitura de um nível mais profundo, supostamente almejado pelo escritor e supostamente almejado por nós em relação à realidade. Aí residiria sua moral, não apenas cínica, mas também complacente. Porém, isso quem decidirá será o leitor, ao final do livro, quando chegar a seu “Fim”.

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2 comentários

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    Postado 28/02/2010 às 19:51 | Link

    Adorei teu blog, é um recanto de coisas pensantes. Isso é raro neste mundo caduco, pessoas que se proponham a escrever sobre coisas inteligentes na internet.
    Parabéns mesmo.

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    Postado 01/03/2010 às 10:24 | Link

    Espero torná-lo melhor, sempre, obrigado.

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