Quarta-feira de cinzas

Começa com um homem e o nome dele é Juarez. Ele está Levando um tapa na cara por roubar da vendinha. Surpreendido pelo dono Edevaldo, foi ainda maltratado pelos filhos do cara. Cabra safado, gritavam. Juarez nem fez para tanto, uma frutinha no bolso, o toucinho na manga. Mas os caboclos eram do mal e queriam problema. No final de semana, no boteco do Joaquim ali pertinho, Juarez tirou a peixeira e gritou com toda força. Decepou um pedaço da orelha e lascou o couro cabeludo do Aldo, filho mais velho do seu Edevaldo. Os homens seguraram os dois, um com peixeira em punho, outro com garrafa quebrada à mão. O pedaço da orelha foi salvo. Edevaldo deu tempo ao tempo, continuo vendendinho, como se nada. Aldo levou dois meses para ficar bom e buscar vingança. Quando Juarez seria surpreendido na volta para casa, com pai e filho pulando no pescoço do peixeiro e esganando-o até sufocar, eles não imaginavam: o cabra tinha sido jurado numa outra batalha e morria incendiado, estalando junto à pilha de pneus perto da entrada da própria casa. A polícia investigou e não achou nada que apontasse para os pneus, o combustível ou o fogo, só as marcas das sandálias de Aldo filho e de Edevaldo pai, que na ânsia por reconhecerem o corpo queimando deram voltas em torno dele, vazando dali sem perceberem que, no chão de terra batida daquela parada restaram apenas os vazios dos pés de ambos sobre as cinzas do infeliz. Um caso claro de vingança.

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