O advento do sujeito

O homem tentará explicar que não há como viver sem amar alguém e que esse sentimento possui um peso. Não, não irão entendê-lo, porque o sentimento até pode possuir o peso que for, sim, mas quem mede isso? Ninguém mede isso, você perdeu completamente esse seu juízo? E amar alguém, ora, não se vive sem amar alguém, somos seres humanos, você enlouqueceu? Mas será bem isso que o incomodará: ser humano. Isso que significa ter um corpo, um cérebro viscoso comandando e dizendo tudo, vendo tudo, sentindo tudo, principalmente sentindo tudo, não é o coração. Então ele sentirá um aperto no cérebro e tentará ainda explicar que não, não é literalmente “viver sem amar”, nem o “sentimento”, mas “esse”, ou melhor, “este” sentimento. Sem sucesso, pois lhe dirão que está louco, que perdeu o compromisso com a vida e que, mais dia menos dia, ninguém, nem sequer uma alma abandonada, irá querer dialogar ou se envolver com ele, por ter perdido o senso, ter virado um desses lunáticos que profanam túmulos ou discursam em praça pública. Uma doença da modernidade, concluirão. Modernidade, ele pensará. É isso. Dane-se a vida moderna, parei com ela! Simples assim, o homem deixará de falar e querer representar, o homem apenas viverá o que tem à disposição, aguardando o momento em que tudo isso acabará. E você pode crer que acabará, sim, pois um dia este sentimento, esta dor, este peso e aperto no cérebro irão cessar, mas não sem deixá-lo provar do sentimento de amar alguém e carregar este peso sem contar com as condolências ou o vaticínio da modernidade. A vida moderna que se dane, dirá mais uma vez, e mais seguro, eu sou o meu próprio sentimento e me alimento de sua existência, deixe-me morrer se isto for uma doença, pois que se dane a vida moderna, que se danem os medicamentos, que se danem você e o que você pensa.

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