O mundo de
Christina

Christina's World (1948) - Andrew Wyeth

Christina’s World (1948) – Andrew Wyeth (1917-2009)

De saída, eu preciso lhe dizer que eu concordo. Esse quadro merece a fama que possui e é digno de todo encantamento que provoca em muita gente. Faço coro. Considero-o de uma densidade esplendorosa, por isso realço aliado aos seus méritos o meu deslumbre, para que você saiba, desde já, que meu comentário não será imparcial.

Não apenas essa, mas várias pinturas de Andrew Wyeth (1917-2009) são de um realismo avassalador para o meu vago imaginário transitar. Se Christina’s world (1948, MoMA) é de fato o quadro mais representativo da obra dele, isso eu não sei e nem faço muita questão de saber. O que me interessa nele é o que você lerá, a seguir, numa análise bem pessoal, pois eu seria insincero fazendo diferente e porque eis o que me interessa compartilhar, aqui neste texto.

A princípio, nos detenhamos ao quadro, para depois eu lhe dizer, caso não saiba, em que contexto ele foi criado e o que nele representa um diálogo com a realidade de seu autor e também de Christina Olson (1893-1969). O Realismo de Wyeth não funciona como acaso, nem se debruça sobre paisagens mortas ou imobilizadas, sendo principalmente nesse quadro uma janela familiar aberta ao mundo impressivo de todos nós.

Do imaginário

Que mundo é esse, no qual a juventude representa a liberdade, mas o corpo serve-lhe de cárcere? A suavidade, mas também aridez das cores de “Christina’s World” refletem o olhar mudo de sua jovem personagem em busca da claridade tênue do horizonte.

Olhar mudo, eu disse? Sim. Obviamente, não podemos enxergá-lo (e isso me lembra “Betty”, de Gerhard Richter), mas as sugestões apresentadas por Wyeth, e que logo eu aponto quais são, nos levam a imaginar que é para lá que os olhos de sua personagem se voltam. A paisagem ampla de um ambiente rural como esse representa o tempo melancólico de tais paragens, também reforçado pela posição prostrada da figura feminina e o pouco espaço reservado às habitações, que são postas no topo do enquadramento, à linha do horizonte.

Eu também me referi à claridade tênue? Sim, que é para não despertar os olhos desse estado de latência, da juventude como a aurora de qualquer dia perdurando no tempo aparentemente inerte. Isso porque Christina representa a liberdade em contraposição à imobilidade, sobre a qual comento melhor depois, por isso talvez a melancolia ou então o tempo sereno daquela região marquem importante presença no quadro.

Eu tenho me referido com convicção à juventude da personagem (apesar do quadro ser de 1948, quando Christina tinha 55 anos), porque ela é indicada através de seus trajes e do desenho de seu corpo, além de ser um dos seus temas. E a solidão, que até é óbvia, contorna a composição num todo, porém também possui peculiaridades de forma na proporção entre estepe e habitações, entre cores e luzes, ainda que seja mais forte devido mesmo à figura feminina isolada no primeiro plano do enquadramento.

Percebe-se que o corpo de Christina prostrado sobre o solo dobra-se para trás, em uma espécie de movimento que visto assim estático é peculiar, sobre o qual você talvez questione a razão de ser. Tentemos entendê-lo. Paralisada na imagem, a personagem possui movimento na representação, e é isso que lhe atribui sentido. Todos os ângulos de seus membros revelam que o instante é dinâmico e que perceber esse movimento é essencial para o entendimento, pois sua imobilidade contraposta à liberdade de sua juventude não diz respeito ao seu corpo, se não ao constante estado de espírito. Christina se vira, como se pega de surpresa, e esforça-se para enxergar algo ao longe.

Poderíamos imaginar que alguém ou alguma coisa relacionada à casa e ao celeiro chama sua atenção, porém as sugestões de cores, luz e perspectiva me levam a pensar que não, trata-se do horizonte mesmo e o que ele significa no quadro, em relação ao tema da juventude e da liberdade, acima mencionados. A melancolia e a solidão são mais evidentes que um entendimento de cunho narrativo, porém eu não o elimino, que fique claro.

Esse movimento da personagem, tão essencial ao quadro, revela na posição de suas pernas e ângulo de seu dorso a paralisia daqueles membros, o que a leva enfim a contorcer o corpo de tal maneira, de modo inclusive a sugerir que Christina se arrastaria sobre a estepe. Ao notar essa peculiaridade e atribuir sentido à posição da personagem, o quadro ganha em significação e se completa em relação aos outros pólos, que são a luminosidade tênue do horizonte e a posição das duas habitações no enquadramento.

A partir daí, podemos supor muito mais e refletir ainda melhor sobre o mundo de Christina. Mas, paro por aqui e deixo aberto ao seu imaginário, que espero não estar comprometido pela minha perspectiva em relação ao quadro. Volto à pergunta quase retórica que abriu esse trecho do texto, lhe questionando que mundo é esse.

Da realidade

Nesse mesmo dia 16, mas de Janeiro de 2009, falecia aos 91 anos o pintor americano Andrew Wyeth. Representante desse Realismo meticulosamente denso, que se nota na têmpera “Christina’s World” (aliás, esta era uma das técnicas de Dürer, pintor renascentista muito admirado por Wyeth. Como, até onde sei, ela não é mais tão comum e teve seu momento entre os séculos XIV e XV, podemos supor que seu uso pelo pintor americano sirva de referência ao pintor que ele admirava) ele era, arrisco dizer, o extremo oposto de Jackson Pollock (1912-1956) e seu gotejamento expressionista. A despeito de suas diferenças de estilo e, dizem, rusgas pessoais, Pollock se refugiou em sua cidade natal, Cody, no Wyoming, assim como Wyeth, porém este em Cushing, no Maine.

Eis onde o quadro foi pintado, em 1948, dentro de seu ateliê, no segundo andar da casa dos Olson. O pintor fez daquele reduto sua janela para o mundo, durante 30 anos, e também para o universo de Christina Olson. Vítima da doença de Charcot-Marie-Tooth, que chegou a paralisar seus membros inferiores, ela não soube da repercussão que seu pequeno mundo ganhou internacionalmente.

“In the portraits of that house, the windows are eyes or pieces of the soul, almost (…) “To me, each window is a different part of Christina’s life.”, Andrew Wyeth.

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Andrew Wyeth no MoMA: http://www.moma.org/collection/artist.php?artist_id=6464
Christina World’s no MoMA: http://www.moma.org/collection/browse_results.php?object_id=78455

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Um comentário

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    Postado 26/07/2014 às 19:40 | Link

    Tenho a sindrome de Charcot-marie-tooth, e adorei ver este quadro e que muito significou para mim.

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