Entre a ironia pós-moderna e a literatura contemporânea

Publicado como artigo, no Portal Literal

Encontrei um ensaio intitulado David Lynch Keeps His Head (1996), de um autor com o qual eu travava contato assim, via cinema porque eu buscava ler mais era sobre Lynch, não Wallace. Fato é que logo me rendi (nada difícil, convenhamos) e hoje integro a ala dos fãs dessa bela literatura que ele nos deixou. Mas não só, pois é difícil não se encantar também pelo modo como ele construía seu pensamento.

A obra de David Foster Wallace significa para a geração pós-80 – num extremo, educada pela indústria cultural e, agora num outro, pelo conhecimento via internet – a sua própria formação e atualidade, seja qual for o ismo ou wave que a História da Literatura reserve ao autor norteamericano. Mas, voltemos a um período anterior a ele, mais ou menos entre a obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica e a consolidação da TV como a caixa de Pandora moderna, em que um dos efeitos da literatura foi ter abusado da ironia como recurso.

Já em 1923, o russo Viktor Chklovsky confessava o desejo de escrever à amada como se nunca houvesse existido literatura. É que a ironia devorava as palavras tornando-se a forma mais fácil de superar a dificuldade de se descrever as coisas: as palavras estavam pálidas de exaustão. Uma das consequências da literatura pós-moderna foi ter tornado a ironia seu próprio carrasco. Se esta possui uma face boa como instrumento pedagógico ao despertar propósitos intelectivos, por outro lado, se utilizada para simplesmente ridicularizar, revela nesse mau comportamento o afeto vulgar do sujeito que dela faz uso e “por fim nos tornamos iguais a um cão mordaz que aprendeu a rir, além de morder”, completaria o filósofo de Humano, Demasiado Humano (1886). Tratar com jocosidade a sensibilidade humana e adotar a ironia como defesa contra o cinismo alheio (algo que agora é moeda de troca, no cotidiano televisivo e virtual), isto se tornou ineficaz e também sem graça. O que era escudo virou arma e, de repente, está apontada para a própria cabeça do escritor.

Em seu Teoria da Literatura: Uma Introdução (1983), o crítico britânico Terry Eagleton afirma que a literatura do período tido como pós-moderno “é uma arte de prazeres, superfícies e intensidades fugazes. […] Por saber que suas próprias ficções são infundadas e gratuitas, pode atingir uma espécie de autenticidade negativa apenas ao alardear sua irônica consciência desse fato, pervertidamente chamando atenção para seu próprio status de artifício construído”. Pois bem, não há mais autenticidade nisso, e o status desse recurso é menor que o de um artifício desgastado. Haja vista isso tudo, o que o autor do catatau Infinite Jest (1996) teria a dizer?

Em E Unibus Pluram: Television and U.S. Fiction (1993), um de seus belíssimos ensaios, Wallace apontou o dedo para a televisão, mas não a culpou. Afinal (estendo a conclusão), após a televisão vem a internet arrebatando os fiéis e assim será por diante. Não está aí o problema. E não seria o caso de reclamar o esgotamento da literatura, nem receitar sua plenitude, como fez John Barth, uma geração antes. Wallace questionou o papel estético do escritor e apontou o mau uso da ironia, propondo justamente ironizar tal condição. Em discursos de formatura, entrevistas para Charlies Roses, leituras no Lannan Foundation e seus textos ensaísticos, o que noto e me encanta é um autor em busca do diálogo mais sincero com seu leitor, propondo-lhe uma espécie de reconciliação, pois o elo desgastou-se enquanto as palavras reclamadas por Chklovsky perdiam o efeito. Ele não parecia preocupado apenas com a sua literatura ou em demonstrar genialidade, mas sim com a expressão de seu pensamento aliado à estética literária, comprometidos ambos com a essência de uma obra de arte. A ficção como caminho não apenas para o conhecimento das faces ocultas da realidade, mas também o reconhecimento da essência humana tangendo fatos pueris do cotidiano. Isto, arquitetado por uma percepção sempre crítica e provocando não raro reflexões profundas.

As lamúrias bem conhecidas sobre os índices baixos de leitura, que afligem (há que se dizer) não apenas o Brasil, elas não podem ser justificadas com o dedo em riste na cara do leitor, devido a um suposto défice de sensibilidade ou a má educação geral. Em nosso país, a literatura parece (se você me permite generalizar) correr para o lado pop e cool ou para o hermetismo acadêmico, ambos servindo de abrigo ou prisão para um escritor emergente. Ora, não encarar a formação do leitor brasileiro, as transformações que a nossa cultura atravessa mesclando o lado europeu com o norteamericano, à procura de um resultado que lhe dê ares de contemporaneidade e autenticidade, a meu ver parece ser sintomático. Na esteira disso, como leitor não procuro o equivalente a Wallace, aqui no Brasil, e sim um escritor que possua posicionamento estético e fale à minha geração, não à história da literatura, nem sobre suas pretensões autorais ou referências contemporâneas. De lado ponho, portanto, a generalização entre o acadêmico e o pop, pois entre eles deve haver sim uma via possível a ser (ou já sendo) buscada.

O escritor, a meu ver, não tem de escrever obras menos profundas (ou usar da seguinte desculpa), culpando a sensibilidade humana, supostamente destruída pela indústria do entretenimento. Se o novo, o original, o rebelde e inquieto é aquele que irá dar um passo atrás, como propõe Wallace, e pensar a literatura com sinceridade, isso não representa perda de qualidade estética. Quem sabe, represente menos chance de exibicionismo. Talvez caiba aos poetae novi pós-pós-modernos se rebelarem contra a pretensão de fazer alta literatura, pois é possível que o desejo por este referencial esteja superestimado. O caminho talvez seja ir pela via supostamente mais fácil, que é o escrever boas e belas histórias que dialoguem com o leitor comum. É correr o risco de não ser reconhecido como brilhante, difícil ou original. Mas o que parece é que esses juízos estéticos fazem parte da raiz do problema, não dos critérios do leitor atual. Este anda sim enfeitiçado pelas belas imagens do Cinema e da Televisão, principalmente porque o riso vem frouxo e fácil, sem demandar muito esforço, mas não porque suas necessidades estéticas estejam sendo supridas ou esses meios referidos sejam infalivelmente atraentes. Talvez isso aconteça porque a Literatura se distanciou de seu leitor e perdeu o referencial, usando fórmulas já ineficazes ou recursos de outras linguagens, aliados a uma pretensão maior que o próprio esforço em superá-la. Daí uma reconciliação necessária, mediante a expressão sincera e sem artifícios e a busca pelo leitor perdido entre tantos veículos possíveis.

Wallace propõe um caminho à literatura, que já não é o mesmo traçado pelos pós-modernos da geração que o precedeu. Resta saber, agora, para que lado seus contemporâneos a estão conduzindo, já que ele se despediu dessa busca.

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