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A candura de Polifemo e o drama de Coridão

Neste texto, eu somo as leituras do idílio XI [1] – do poeta grego Teócrito (III a.C.) – e da bucólica II [2] – do romano Virgílio (I a.C.) – tematizando suas personagens principais: Polifemo e Coridão. Ambos sofrem de um famoso sentimento humano, mas interessa-me aqui seus caráteres (ou caracteres, como preferir). Os poemas, na íntegra e traduzidos, encontram-se ali nos links.
Ao final, exponho algumas referências mais.
Agradeço ao Guilherme Gontijo pela leitura, correções e sugestões.

A candura de Polifemo…

Polifemo era um gigante feio, que vivia na terra dos ciclopes, em uma caverna próxima à Sicília, terra natal do poeta grego Teócrito (estamos no século III a. C.). Essa falta de beleza do ciclope não passava despercebida nem por ele mesmo, que a tinha bem claro. Mas antes dele nos confessar a má aparência, já o descrito sem qualquer beleza física havia feito o lendário Ulisses, no canto IX da Odisséia de Homero (isso, cinco séculos antes: VIII a.C.): “um homem descomunal, um brutamontes, portento de maus bofes, sem rei nem lei” (Odisséia, Canto IX, vs. 213-215. Tradução de Donaldo Schüler). E, não só isso, os termos com os quais a personagem daquela jornada se refere a Polifemo são ainda piores se os elencamos: “globolho” (v. 295), “canibal” (v. 336), “glutão” (v. 394). Aliás, esse é o nosso referencial mais evidente sobre o gigante, uma vez que o conhecemos muito mais através desse grande cânone literário e seu legado histórico, do que pelo idílio teocritiano, não é certo? Porém, podemos dizer que Polifemo, apesar da falta de inteligência evidenciada por Ulisses através do episódio da caverna – na Odisséia, este ludibriou astutamente o ciclope –, não se iludia quanto a sua aparência não, pois ele mesmo a confessa, nesse décimo primeiro idílio de Teócrito: “de uma orelha a outra, em todo o meu rosto se estende uma só e grande hirsuta sobrancelha… tenho um só olho e… sobre meus lábios tenho um grande nariz” (Teócrito, Idílio XI, vs. 30-33. Tradução de José Cardoso). Haja vista isso, bem antes de Ulisses aportar em sua terra – uma vez que, apesar de ter sido escrito cinco séculos depois, o idílio de Teócrito trata do Polifemo jovem – ele já sabia que de uma boa imagem não nutria.

Só que nós aqui não trataremos do Polifemo já mais velho, o da obra de Homero – que enfrentou Ulisses e seus homens quando estes retornavam de Tróia –, e sim de quando o ciclope estava justo “naquela idade em que, à volta dos lábios e das têmporas, lhe começava a despontar a barba” (v. 11,12), dedicado a uma vida pastoril cuidando de ovelhas. É durante essa fase de sua vida e em ambiente tão agradável, em meio à natureza aprazível da vida no campo, que nosso gigante foi acometido por um grande sentimento. Sendo assim, peço que deixemos de lado essa má imagem que temos dele e nos perguntemos se mesmo um brutamonte desse não seria capaz de (ainda que vá soar muito estranho essa possibilidade) se apaixonar à primeira vista…

No décimo primeiro idílio de Teócrito, nosso Polifemo é protagonista de um pequeno poema pastoril, não mais aquela personagem secundária de uma grande odisséia. O que não o torna belo, mas ao menos lhe permite apresentar-nos suas qualidades (conhecê-lo um pouco melhor, digamos). Já sabemos que ele é um jovem pastor vivendo em uma terra regada por Zeus e em que, portanto, tudo germina. É nesse belo cenário que o ciclope foi acometido por uma arrebatadora paixão à primeira vista, quando se deparou, através de seu único olho, com uma ninfa de nome Galateia: “Depois que te vi, ó Galateia, não posso de modo algum, nem agora nem mais tarde fugir de seguir teus passos” (v. 27-28). Neste primeiro encontro entre ambos, a deusa Afrodite cravou-lhe no peito o dardo certeiro do amor. Nosso gigante está tão arrebatado por essa paixão, que inclusive cede completamente ao ócio e dedica-se apenas a expurgar de seu coração apequenado esse grandioso sentimento que o consome. As ovelhas são deixadas completamente ao léu, ele senta-se ali onde as ondas perdem o fôlego e olhando para o mar dedica-se a cantar a amada sua declaração de amor. Não é por acaso que ele se senta ali para entoar sua paixão em belas canções, pois sua amada é uma divindade marinha, filha de Nereu, o “velho do mar”. Mas será que ela o ouve? Não há indício nenhum, no poema, mas ainda assim ele a ela se dirige sem se questionar. Aqui, é bom que se diga que uma das características da poesia amorosa dessa época é o sujeito apaixonado cantar à porta da casa de sua pretendida. A despeito dessa dúvida, se ela o ouve ou não (que é mais nossa que dele), como então provocar nela um sentimento mútuo? Consciente de sua falta de beleza, como vimos, o que ele irá fazer é, claro, elevar o que há de bom a seu favor, para, quem sabe, cativar desse modo o coração de sua amada.

Assim é como sabemos que Polifemo possui muitos bens, que além de várias ovelhas com rico leite, também queijo nunca lhe falta. Sua caverna é arborizada e nela bate um vento agradável. E ao invés da água salgada do mar, dentro dela há água fresca, quem preferiria aquela a esta? “… aproxima-te de mim, ó Galateia, e partilharás, igualmente de tudo” (v. 43, 44). Nosso grandalhão também sabe tocar flauta melhor que qualquer outro ciclope: “eu sei tocar flauta, cantando, a um tempo, para ti, ó minha doce maçã, e para mim mesmo, quantas vezes de noite a desoras!” (vs. 37-41). A música, para os camponeses daquela época, os ajudava a fluir seus sentimentos, além de também servir de estímulo ao trabalho. E é dessa maneira que Polifemo procura convidar Galateia para viver com ele, em ambiente tão agradável, rico e melodiosamente tenro.

Mas, como se não bastassem suas declarações e oferendas, ele demonstra que não pouparia esforços para estar com sua amada, faria de tudo para ir ao encontro dela, até nas águas profundas do oceano, se necessário fosse: “Agora, sim, ó donzelinha, agora mesmo aprenderei a nadar, se acaso algum estrangeiro, em sua navegação, com seu barco, aqui arribar…” (v. 60-62). Ele tanto não pouparia esforços quanto inclusive se deixaria cegar por ela, numa demonstração de quão submisso seria ou quão refém estava daquele sentimento: “Eu suportaria que com tua própria mão me queimasses a alma e o meu próprio olho, que é o que tenho de mais útil” (v. 51-53). Neste trecho, arrisco interpretar alusões a Homero, postas por Teócrito de modo velado, afinal sabemos que um barco ali irá arribar, futuramente. E, também, que o que ele possui de mais útil lhe será ardilosamente tirado. Porém, sem ainda fazer a menor idéia sobre isso, nosso Polifemo revela que em nada teme se expor, fala inclusive muito abertamente de seus sonhos mais íntimos, quando, inebriado também pelo sono, sua amada vem lhe assediar a consciência. Mas esta última não se engana, e tão logo seu ciclope desperta, só encontra-se envolta à solidão da caverna e mergulhada nos desejos do coração de seu gigante.

Penso, através do que até então pudemos notar, que Polifemo não é tão bobo quanto suporíamos, caso nos prendêssemos apenas à figura desajustada descrita por Ulisses. Ao menos não enquanto jovem, uma vez que ele demonstra poder de persuasão, recorrendo a bons artifícios para tentar encantar sua amada e trazê-la para seu lado. Um tanto exagerado, talvez, e, como já apontamos, submisso demais, também. Talvez essa paixão juvenil arrebatadora o torne vulnerável, um gigante de coração mole, ao contrário do que Ulisses irá dizer sobre ele – quem diria, este então exclamaria! E, aqui, novamente uma informação de contexto do poema talvez nos seja útil, a qual diz respeito às paixões arrebatadoras da poesia dessa época, fatos estes bem comuns. Portanto, não se trata de um caso isolado, o de Polifemo, ainda que isso não diminua em nada a dimensão do sentimento de nossa personagem. Ainda sobre sua inteligência, podemos dizer que ele demonstra não a ter tão limitada não, uma vez que possui consciência da própria feiúra, ponto para o qual já chamamos a atenção antes. Também talvez não seja tão ingênuo, consequentemente bobo, já que ele é consciente inclusive de que por amor se pode fazer de tudo, menos o impossível, como ofertar à sua amada, numa mesma época, lírios e papoulas, quando sabemos por ele que “uns nascem no verão, outros, no inverno” (v. 57-59). De algum modo, ainda que arrebatado, ele pensa sobre as possibilidades e não ilude Galateia prometendo-lhe coisas irrealizáveis. Se fosse bobo, ele nem se questionaria sobre possibilidades e, com isso, ela poderia concluir que ele não passa de um jovem apaixonado sem muita consciência das coisas. E claro que esta conclusão não contaria a seu favor. Prevendo isso, ele faz a ressalva para assegurar-lhe mais uma boa impressão.

Desse modo, eu faço questão de ressaltar o lado doce de nosso gigante, através dessa sua sinceridade com Galateia, além de seu desmedido esforço por ela, como ficará ainda mais claro, a seguir. Ao mesmo tempo, ressalto seu lado consciente da situação em que se encontra, tanto por saber que não é belo, como também por não prometer o impossível. Ainda que, disso tudo, não possamos concluir que ele não deixa de ser ingênuo, uma vez que algumas de suas palavras não são das mais bem eleitas, revelando até falta de trato quando as escolhe: “Tu que és mais branca de ver que o leite coalhado… mais reluzente do que a amarga uva verde” (vs. 20-22). Aqui, preciso trazer mais um dado de contexto, para completar essa leitura: o pastor, na poesia daquela época, é sempre tido como uma figura tipicamente ingênua. Porém, a despeito de sua ingenuidade, da falta de trato, ainda assim creio ter exposto as qualidades admiráveis do gigante, as quais sequer imaginávamos ele podendo nutrir, certo? E as ressalto, aqui, pois estas tais não são as mesmas de outra personagem, de alguns séculos mais tarde, da qual falaremos agora.


…o drama de Coridão

Coridão também é um pastor, como Polifemo. E não é em pouco que eles se assemelham, a ponto até de nos confundirmos entre ambos, como se falássemos de uma mesma personagem. Nascido no segundo poema da obra Bucólicas, do poeta romano Virgílio (I a.C.), o protagonista dessa pequena história tem como referencial literário justamente o nosso jovem Polifemo. Pois quando Virgílio escreve essa segunda bucólica, dois séculos depois de Teócrito, é com este autor que o romano está dialogando, enquanto o grego, por sua vez, dialogava com Homero, nascido cinco séculos antes dele, como já vimos. Os diálogos não são de mesma natureza, pois também vimos que Teócrito muda nossa impressão do gigante da Odisséia, tematizando-o enquanto jovem. Sobre isso, há uma leve diferença entre as duas personagens, que é a falta de indício de que Coridão fosse um jovem, com a barba ainda despontando em seu rosto. Conhecemos menos o protagonista de Virgílio, que o de Teócrito, mas ele não nos será tão estranho, como veremos. Aqui, irei tratar mais de suas diferenças e o quanto estas os distanciam, revelando posturas distintas em relação ao que envolve uma paixão amorosa, ainda que de modo superficial suas histórias e condições sejam muito semelhantes. Sobre isso, é válido dizer que, por vezes, também estruturalmente os poemas são iguais, como se Virgílio apenas trocasse os nomes das personagens e as palavras do grego para o latim, mantendo a organização da estrofe conforme vem da sua fonte primária. Porém, esta questão é mais complexa de se explicar e o objetivo deste texto não é este, apenas vale dizer que ao final teço uma breve reflexão e apontamento a respeito dessa questão histórica envolvendo os poetas. Agora, voltemos à segunda bucólica e descubramos mais a respeito da personagem de Virgílio.

Assim como Polifemo, Coridão sofre de uma paixão arrebatadora e um sentimento amoroso não realizado, recorrendo também à declaração desse sentimento como forma medicinal de expurgar a dor que sente. “Córidon, um pastor, pelo formoso Aléxis, / delícias do seu dono, em desespero ardia-se” (VIRGÍLIO, Segunda bucólica, vs. 1,2. Tradução de Raimundo Carvalho, na qual “Córidon” é, obviamente, “Coridão”). Ele também oferece seus bens ao deleite de seu amado, que pelo trecho já sabemos se tratar de um jovem escravo de outro pastor. “Ah! Se só te aprouvesse estes meus pobres campos / e uma cabana humilde habitar…” (vs. 28,29); “E mais, em vale incerto achei dois cabritinhos, pêlo ainda malhado e secando dois ubres por dia, cada um: para ti os conservo” (vs. 40-42). Como Polifemo, Coridão faz oferendas e mostra-se entregue ao amor que sente.

Porém, este nosso protagonista de agora não procura tanto cativar seu amado, quanto persuadi-lo de entregar-se aos seus desejos. Para falar de sua suposta beleza, ele é retoricamente ardiloso, diferente do, um tanto ingênuo, Polifemo: “Nem sou tão feio assim: há pouco me vi n’água, / quando o mar era calmo; até Dáfnis não temo, / tendo-te por juiz, se não mente a imagem” (vs. 25-27). Aqui, o que ele faz, como um modo de provar que, se for por beleza, então Aléxis não pode repeli-lo, é trazer a figura de Dáfnis como uma forma de atestar a bela imagem de si mesmo, que se vira refletido no mar calmo e percebido que nutria boa aparência. Pois se Dáfnis era o semideus que despertava a paixão em ninfas, deusas e mulheres, então, se Coridão se colocasse ao lado dele, para que fosse comparado em beleza tendo Aléxis por juiz, sua boa aparência não o trairia e sua beleza seria atestada, não sendo por esse motivo que seu amado Aléxis o poderia repelir.

Ele também é ardiloso quando recorre a uma espécie de argumento de autoridade e quando se gaba das condições que possui, ao se referir ao deus Pã e convidar seu amado para cantarem juntos imitando-o, o deus que ensinou a confeccionar flautas e que protege os pastores: “Em par cantando, Pã na selva imitaríamos / Pã, primeiro, colar vários caules com cera / ensinou. Cuida Pã de ovelhas e pastores” (vs. 31-33). Também ao falar de outro pastor, Dametas, que o teria presenteado com um flauta de sete canudos desiguais e proclamado Coridão seu sucessor nesta arte, fato este que gerou inveja num outro pastor, Amintas: “A minha flauta tem sete tubos distintos; / pois, outrora este dom Dametas me ofertou, / declarando, ao morrer: ‘És o meu sucessor’. / Dametas disse; o tolo Amintas invejou-me” (vs. 36-39). Há aqui, portanto, mais indícios de que este protagonista usa de artifícios retóricos, subterfúgios de autoridade, gaba-se para atrair a atenção de seu amado, diferente do sincero Polifemo, que a Galateia promete entoar sua flauta para que ela se delicie ouvindo sua canção. Ou seja, há mais labor em prol da companhia e da entrega amorosa, no gigante, que convoca sua amada para o deleite do sentimento.

Além dessa diferença, também encontramos em Coridão a junção de certo tipo de comportamento preventivo, que se alia a outro, de teor dramático. Já no início de sua declaração de amor, ele evoca o nome de Aléxis para lhe dizer quais consequências viriam de seu silêncio. “Não escutas, cruel Aléxis, os meus cantos? / Nem tens pena de mim? Me forças a morrer” (vs. 6,7). Aqui, claramente alia o silêncio de seu amado à causa de uma provável morte sua como consequência. Apesar de isso ser um recurso recorrente na poesia da época – a falta de reciprocidade do sentimento amoroso provoca a ameaça de morte daquele que ama –, a diferença para com o jovem Polifemo não diminui por conta do lugar comum desse estilo poético, afinal o nosso gigante não chega a falar nesses termos com Galateia.

Agora, conhecendo um pouco melhor a personalidade de Coridão, passo a ler estes trechos carregados como um tipo de comportamento dramático, o qual pretende despertar a consciência de Aléxis e assim sensibilizá-lo para a causa da personagem que ama e quer que o outro a atenda em seus desejos amorosos. E o tom de aviso em relação também às consequências que o silêncio de Aléxis pode ocasionar, se repete mais ao final quando, a respeito dos cabritinhos que Coridão guarda como oferenda para seu amado, diz que “Téstiles, desde algum tempo insiste em levá-los, / e o fará, já que meus presentes não te aprazem” (v. 43,44). Esse tom de ameaça dramatiza a situação, diferente de Polifemo, que alude à falta de correspondência simplesmente questionando a razão desse silêncio de Galateia.

E, nesse detalhe, convém assinalar outra diferença entre eles: enquanto Polifemo se propõe a compartilhar seus bens com Galateia, e demonstra fazer de tudo por ela e se esforçar para estarem juntos, Coridão se resume a elevar seus dotes e oferecer presentes, alertando, como vimos, sobre as consequências do silêncio de seu amado. O pastor de Virgílio se esforçará menos que o gigante de Teócrito, sequer sairá de sua terra em busca de seu amado, como faria o ciclope, que até aprender a nadar se sujeitaria, por Galateia. Neste ponto, Coridão é mais racional que Polifemo, ainda que não demonstre, como o ciclope, ter consciência de suas limitações. Onde Polifemo reconhece a própria feiúra, Coridão recorre a Dáfnis para atestar sua beleza. Onde Polifemo reconhece a impossibilidade do que pode oferecer a Galateia, Coridão recorre ao aviso sobre o silêncio de Aléxis.

E é como eu leio a grande diferença entre ambos. Quando Coridão recorre ao drama, distancia-se da candura de Polifemo, que está mais próximo da sinceridade. Talvez um esteja para o ingênuo, tanto quanto o outro para o dissimulado. E é nesse jogo de simulação que marcam suas diferenças mais interessantes (no meu entender). É importante notar que a diferença não é casual, pois se Virgílio tem à mão o idílio teocritiano como referência, e altera em sua bucólica tais qualidades de Polifemo para a sua personagem Coridão, isso se deve à postura estética do autor latino, que escreveu numa região e em um momento histórico completamente diferente do período em que vive o autor grego. Sabemos q­­ue a Grécia Antiga serviu de modelo a Roma, uma excelência espiritual a ser alcançada. A Paidéia – grosso modo: Cultura – grega era cara aos romanos, que até o momento de Virgílio careciam de grandes valores artísticos. Este autor latino, vivendo justamente – e não por acaso – na Era de Ouro da história romana, irá legar a Roma elevação intelectual, para dizer o mínimo. Não só este autor, claro, nem essa mudança se deu apenas no nível cultural daquela sociedade. Tudo confluiu às realizações do Imperador Augusto, naquela época em que Roma principiava seu Império grandioso.

Voltando à relação entre os dois pastores aqui tematizados, acredito que podemos dizer que ambos concordam num ponto, que inclusive soa controverso. Ao final, os dois percebem que estão se iludindo e o silêncio de seus amados não representando nem breve indício de ser interrompido, e que, portanto, certamente há mais Galateias e Aléxis mundo afora. Só que, enquanto Coridão fala com todas as letras e de fato procura expurgar o sentimento de si, Polifemo apenas faz de conta, dissimulando seu certo desprezo ao invés de reconhecer o sentimento como um mal dentro dele e expiá-lo. A controvérsia está em, aqui, enquanto Coridão está sendo sincero, ainda que por talvez não ter mais esperança ou paciência de esperar uma correspondência, Polifemo atua com certa dissimulação. Um usa do expediente do outro, em certa medida, e a nossa conclusão não pode ser outra, além da de que eles realmente são de naturezas opostas. Mesmo quando concordam, discordam na atitude. Porém, nada disso alivia as outras qualidades, pois essa dissimulação de Polifemo faz parte de sua ingenuidade, como um último recurso a um teatrinho bobo, enquanto Coridão fala a sério e não enxergando oportunidade ali irá partir para outra possibilidade, como um bom oportunista.

Abaixo, os trechos finais de ambos os poemas. Primeiro o Idílio XI, de Teócrito, depois a Bucólica II, de Virgílio:

“<<…Ó Ciclope, ó Ciclope, por onde tu distrais o teu espírito? Se fosses fazer cestinhos para lá e se fosses colher pequenos talos para levar às mansas ovelhas, farias bem melhor. Munge a ovelha que tens à mão. Porque persegues a que te foge? Encontrarás provavelmente uma outra Galateia mais bela. Muitas ninfas me pedem que me recreie com elas durante a noite, e todas elas riem às gargalhadas quando lhes dou ouvidos. Isso mostra que eu pareço ser alguém de (importância) na terra>>. Assim tocando (a sua flauta) mitigava o ardor de sua paixão e consumia seus lazeres mais facilmente do que se desse dinheiro (ao médico).” (vs. 73-81)


“(…) ‘Córidon, que demência apossou de ti, Córidon?
Manténs a vide mal podada em olmo alto.
Por que não te propões a fazer algo útil,
trançando com o vime e o junco maleável?
Se este te repele, acharás outro Aléxis’.” (vs. 69-73)

Onde encontrar os poemas?

RODRIGUES, Nuno Simões. Traduções Portuguesas de Teócrito. Lisboa: Universitária Editora, 2000.
Eu transcrevi (em prosa) o idílio XI e disponibilizei-o neste link [3].
Obs.: neste outro link [4], encontrei traduzido em verso, porém não é a tradução que eu utilizei no texto.

Outra tradução que utilizei: PACHECO, Sánchez. Bucólicos Griegos. Gredos: España, 1986.

VIRGÍLIO. Bucólicas (Edição bilíngue). Tradução de Raimundo Carvalho. Belo Horizonte: Crisálida, 2005.
Transcrevi a bucólica II e disponibilizei aqui [5].
Obs.: neste livro do Carvalho, ao final há a tradução de Odorico Mendes também.
Outra tradução: MENDES, João Pedro. Construção e arte das Bucólicas de Virgílio. Coimbra: Almedina, 1997.