Três Macacos (Üç Maymun, 2008), Nuri Bilge Ceylan

Três Macacos (Foto)

Não ouça, não fale e não veja o mal, diz um provérbio japonês. Mas o diretor turco Nuri Bilge Ceylan, em seu “Três Macacos” (Üç maymun, Turquia, França, Itália, 2008), irá tematizar justamente isso sobre o que se deve evitar. No mundo das personagens de seu quinto filme, o mal atravessa o caminho de uma delas e a partir daí entrelaça suas vidas através de uma espécie de cumplicidade.

Ao mal ninguém dirige os olhos, ele paira a consciência como uma sombra nauseante. E percebê-lo é notar que as vozes procuram convencer umas às outras a acobertá-lo. O silêncio revela o assentimento, já que ninguém é capaz de encará-lo. Nesse mundo, deus nenhum ampara e o rumo é decidido pelo impulso à expiação do mal, expurgando a culpa ao transferir o fardo. Se não há deus, também não haverá pecado e a lei dos três macacos selará o destino da trama.

As personagens desse filme são construídas por um diretor hábil, ganhador da Palma de Ouro, em 2008, e que busca exprimir o indizível através da intensidade de um quadro ou a textura expressiva dos rostos ali aprisionados. Essa fotografia morbidamente exuberante merecia um prêmio de excelência, pois além de bela também revela que está lá, no implícito que há em um olhar em primeiro plano ou no limiar entre o sonho, a realidade e o desejo dos membros da família. Tudo editado com primazia, num jogo de cartas marcadas em que a verdade é escondida ao mesmo tempo em que assim traceja o destino humano.

O preço que se irá pagar pelo fardo transferido será o desejo cáustico de alguma paz. Se há um mundo onde o mal não é visto, falado, nem ouvido, então ele não existe. Um mundo assim não se incomodaria com a verdade, pois ela não precisaria ser encarada pela consciência e a paz seria encontrada como resultado natural. Triste metáfora de três macacos, que dificilmente conviveriam bem sob o provérbio japonês, caso em seus mundos existissem a culpa, o pecado e suas consequências.

Ceylan deseja investigar esse mundo interior que é humano, descobrir na psique os indícios de sua natureza e revelar através dos antagonismos o desvio de rumo no destino. Como se equilibrar quando o conjunto desestabiliza? Quem responde pelos atos quando a racionalidade chega atrasada e o tempo não aguarda o pensamento? Não se engane com a beleza das imagens, nem pelo delineamento do tempo, que fica no limiar entre o tédio e a tensão, a depender do grau de envolvimento do espectador.

Ao estabelecer um diálogo com Ceylan, você irá se deparar com o que não se deve, tornando-se cúmplice e já não podendo falar nada. O filme incitará à reflexão, como toda boa e bela obra de arte é capaz, mesmo que você não queira. A história desta família corrompida e alheia entre si, esta história se valida não ao final, com a imagem do trem que leva embora e o temporal que enfim purifica, e sim no eco que ficará em seus ouvidos após subirem os créditos, ao som da chuva.

Quando a verdade não pode ser encarada, a covardia se encoraja e acoberta a falha. O homem é sim capaz de propagar o mal como modo de aliviar uma culpa. A frustração e o ódio são engolidos, enquanto o destino é selado. Perde-se a autonomia e cada personagem torna-se vítima de alguma condição que criou, aceitou ou consentiu. E eles deveriam ser julgados por isso, mas não cabe ao filme a pena de seus pecados. A nós, tampouco, pois quem são essas personagens de passado ferido? Talvez a memória de uma morte em seu seio seja a porta por onde o destino tracejou o percurso trágico.

Justificativas não darão conta, explicações só revelam a complexidade e o que nos sobra é compreender que há algo maior e insuperável, ao qual estamos sujeitos e não há como negar sua força, restando consentir através da covardia ou enfrentar se houver coragem. Faça a sua escolha ou então não ouça, não fale e não veja.

Ficha Técnica

Três Macacos (Pôster mini)Título Original: Üç Maymun
Gênero: Drama
Ano de Lançamento: 2008
Site Oficial: www.3monkeysmovie.com
Nacionalidade: Turquia
Tempo de Duração: 109 minutos
Direção: Nuri Bilge Ceylan
Roteiro: Ebru Ceylan, Nuri Bilge Ceylan e Ercan Kesal
Elenco: Yavuz Bingol (Eyüp), Hatice Aslan (Hacer), Rifat Sungar (Ismail), Ercan Kesal (Servet), Cafer Köse (Bayram) e Gürkan Aydin (A Criança)
Trailer:

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