Literatura é «uma arte que fala em silêncio», Luís Carmelo

O PNET Literatura é um site de literatura que concilia os observatórios de crítica, as pré-publicações e os inéditos literários de autores reconhecidos.
Luís Carmelo
falou ao RASCUNHO acerca das relações entre o sítio, a rede e a literatura.
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O PNET Literatura foi criado com que objectivo?

Esse foi o desafio que nos foi lançado quando fui convidado para editor. E tive de pensar muito porque hoje em dia há um problema de excesso de oferta, há muito ruído, muita redundância. Já se fez tudo. Todos os dias há novos balões de ensaio, ainda bem que é assim. Estive a pensar num conceito que não iria dar a proeminência à informação que é aquilo de que há mais ruído. Embora haja uma rubrica que todos os dias é actualizada – as curtas – que é informação pura e dura, não quis fazer disso o centro do site porque de informação há imensos e óptimos sites.

Pensou então numa estratégia.

Percebi que era muito importante, em primeiro lugar, fazer um banco de inéditos de escritores muito reconhecidos. Não necessariamente consagrados, podiam ser jovens em idade, mas muito atractivos. Em segundo lugar, percebi que a crítica como hoje a conhecemos não é o mesmo do que existia há trinta ou quarenta anos. Precisaria convidar três pessoas muito apropriadas para fazerem três observatórios. Uma só fixada no romance, observando o fenómeno da criação do romance hoje. Outro faria o mesmo com a poesia, tinha de estar no centro do fazer poética e compreendê-la profundamente. O terceiro observatório que imaginei é uma coisa que vi muito pouco é o observatório de tradução: ver quem traduz, o que se traduz e os problemas que se levantam com a tradução literária. Isto não é bem o papel de um crítico, é o de quem consegue observar tudo o que se passa e seleccionar algo muito em particular todas as semanas e falar sobre isso.

Mas o PNET literatura é um pouco mais do que isso…

Sim. Houve outras rubricas que criei que não constituindo elas mesmas o centro do projecto, complementam-no. Mini-entrevistas, ou seja, não aquela longa entrevista como aquela que está aqui a ser feita e muito bem feita (risos), mas o modelo de pequena entrevista cirúrgica que sobretudo confronta as pessoas com o dilema literatura versus rede. Uma outra rubrica é o Destaque na Rede: encontrar espaços na rede que falem de literatura e que reflictam a literatura. Todas as semanas há pré-publicações. Depois foi-se também acumulando um bando de correspondentes. Pessoas que estão em várias partes do mundo e que enviam crónicas sobre eventos literários.

Mas do próprio site também saem obras literárias.

Na galeria de residentes, há escritores que vão publicando inéditos no nosso site e ao fim de um certo tempo esses inéditos juntos podem original obra em papel. Isso por exemplo está a acontecer com um texto muito curioso: um dicionário do Gonçalo M. Tavares, mas também com um texto do Almeida Faria que irá sair em papel muito em breve.

A relação que o PNET literatura estabelece com as pessoas é diferente do formato papel.

Sim, uma coisa é ter uma revista e ter um site da revista. Sabe-se que a função primeira é a função do papel que estabelece uma ligação que não é interactiva, cria no leitor o elo passivo. Aqui pretende-se criar uma interactividade à partida, mas com um conjunto de rubricas que só têm razão de ser na rede. Ou seja, cuja leitura, muitas vezes transversal, se adequa à rede. Falo mais do carácter leve, rodopiante e flexível do observatório e não da crítica pura e dura. São de facto conceitos diferentes que só se percebem vendo no work in progress, no dia-a-dia.

E quem são os leitores do site?

O site é feito sem concessões. Sem objectivos de traduzir a linguagem que lá de desenvolve para outrem, mas não se pensa num público definido à partida. O próprio site é que cria o seu público, como um livro. Hoje em dia a criação de públicos é uma coisa muito mais dispersa, muito mais disseminada, mais incerta, mas isso faz parte do nosso tempo. No primeiro editorial, uma das coisas que dizia e sobre a qual já escrevi muitas vezes, é que o modo como significamos hoje a literatura é diferente do modo como nos habituámos a significar literatura desde o fim do século XVIII. Há alterações profundas na nossa sociedade que desestruturaram completamente o tipo comunicacional onde vivíamos. Os escritores dos anos trinta e quarenta eram autênticos senadores da influência. Hoje em dia não são. Essa função de uma actividade quase sacralizada saltou para a dimensão da imagem. As pessoas hoje em dia querem ter à sua frente uma caixinha com imagens que mexem. Um bocadinho os neoflinstones.

Prefere-se então a imagem…

Tornou-se um bocado um fastio, uma espécie de contra-corrente do tempo estar horas, em silêncio, a apreender um discurso que avança diacronicamente e que nos trabalha uma imaginação sem ter de ser excitada de fora através de efeitos de sentido visuais, tácteis e corporais. A literatura hoje em dia não faz parte do eixo central das nossas tipologias comunicacionais. Mudou de sentido. Mesmo que não queiramos reflectir sobre este fenómeno, ela não é o mesmo que era. Assumi isso quando se iniciou este projecto e penso que esta reflexão está subjacente.

Quer então dizer que vão apostar nessa literatura mais «excitacional»?

Não, não. Vamos manter-nos por aquilo que na tradição literária a literatura é: só letra. Aliás, se se vir no site, mesmo no fundo, há um sítio que diz vídeos. Só lá está para marcar posição. Mas acho que desde que foi criada a PNET literatura colocaram-se lá apenas cinco ou seis sites ligados à literatura. A rede está cheia disso. Está cheia de bonecos que mexem e projectam a nossa imagem. Ali queremos leitura. É uma arte que fala em silêncio, a literatura. E queremos que isso aconteça ali, mesmo contra a corrente dominante. É dessa matéria que é feita a literatura. Desse silêncio, desse sigilo, dessa introspecção, desse toca que toca sem que nos toquemos, mas tocamo-nos.

Isso nunca levantou problemas em termos de mercado? Não vos foi exigido um número mínimo de leitores?

A rede PNET tem evidentemente também funções de ordem económica. Está no mercado, é evidente. Mas dentro da rede, a PNET Literatura à partida não teve nenhuma compulsão que tivesse a ver com o número de visitantes, com objectivos quantitativos. Nunca quis subordinar os resultados positivos ou negativos do projecto a esse tipo de factor. Como o administrador e dono da rede é muito generoso isto pode fazer-se. Mas mesmo assim, nós chegámos aos 100 mil visitantes ao fim de quatro meses ou quatro meses e meio, o que não é nada mau.

E no futuro. Novos rumos ou novas apostas?

A nossa galeria de escritores residentes vai aumentar muito em breve. Não posso ainda dizer nomes, mas posso dizer que vamos saltar para os continentes todos onde se fala português. Vamos saltar para o Brasil, para Angola, para Moçambique e talvez Cabo Verde. Isto sem ter nada a ver com os correspondentes. Vamos ter escritores que escrevam nesses locais e que produzam inéditos regularmente.

O Luís Carmelo tem-se dividido entre aulas, romances, cursos de Escrita Criativa e o PNET Literatura. Não é difícil gerir o tempo?

Só sei viver tendo várias actividades ao mesmo tempo. Penso que trabalho melhor em cada uma das actividades, sendo actividades muito diferentes. É evidente que se põe a questão do tempo, mas a questão do tempo enquanto vivermos há-de sempre pôr-se. Os meios fundamentais: tempo e dinheiro. O dinheiro é um problema eterno, mas temos de viver sobre uma base mínima. O tempo é uma gestão mais complexa, mas é tão complexa que é quase poética, porque é indizível, é imutável. É muito difícil explicar como é que o tempo se consome e se expande. Há fases em que o tempo se consome e parece que não existimos e há fases em que sinto as coisas diabolicamente, consigo fazer coisas tão diferentes e ao mesmo tempo que fico admirado. Há ritmos secretos que passam por nós, mas no meu caso consigo arranjar tempo perfeitamente e dificilmente o arranjaria se fosse virado apenas para uma actividade, se picasse o ponto só num emprego, por exemplo.

E um novo livro. Para quando?

Para já, para já, está prevista uma reedição da Falha. Tenho um ensaio pronto, inteiro, sobre um jovem escritor português que já é um bocadinho consagrado. Houve uma série de solavancos, por isso não quero ainda dizer, mas tenho o ensaio pronto desde o final do ano passado. Tenho também dois romances a meio, mas confesso que estão os dois um bocadinho numa terra de ninguém, à espera que haja uma pequena revelação.
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Entrevista realizada por Elsa Caetano, no site português Rascunho

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