A droga? Que é inevitável

Levava a vida em miúdos, o velho, dava até pra contar nos dedos. Um dia de cada vez. Mas quando os dedos acabaram e, no meio da noite, qual dia era? Desesperou-se. E a madrugada, você sabe, um demônio olhando pela janela. Ao bater à porta, insistente, tapou os ouvidos e clamou a Deus até quase amanhecer. Com o horizonte riscando, discou 1 para emergências. Encontro com a vida, bom dia? Não, Sr., nós fazemos plantão. Fique calmo, Sr., já vamos estar enviando. À porta, um jaleco enorme espremido num corpinho de gente. São eles! O enfermeiro já sabia da história a metade, só de olhar. Cuidado com a cabeça, Sr., vamos pôr este cinto para a sua proteção. Através da janela, um acidente no viaduto. Que vidas levam esses homens, carregando estropiados. Ao chegar, pode se deitar aqui, disseram. Tão logo a primeira foi aplicada, cobriu-se com o manto medicinal. Abençoado agora seja. Pois, nove meses antes, fora achado babando na casa de praia do filho mais velho. O neto tinha ido surfar com a namorada, Lia, encontrando-o por acaso. Morreria ali sozinho, será? Não faria diferença. O neto ainda deu umazinha, antes de voltar à cidade. Quis aproveitar, já que também iria cair. Fugir dali, largá-lo lá? Resolveu foi esfregar na cara do hipócrita. O pai (de Lia) a proibiu de visitar o drogado. O neto e o velho foram pra reabilitação. Acontece nas melhores famílias. Mas só o velho “sobreviveu” ao “tratamento”. O jovem era rebelde, um espírito arredio encarcerado. O corpo é frágil, você sabe, não o conteve. Hoje, a recaída não foi a que o enfermeiro viu na pupila cediça. Disse, antes de levar a picada, ter recebido a visita do neto o atormentando com aquela droga. Os médicos se entreolharam e a conclusão levou-o à ala contígua, dos sem juízo. Foi tarde. Devia é morrer de uma vez!, pensou alto socando a parede do banheiro. Mas pensaria assim, dois meses depois, vendo o velho num caixão e culpando Helena pela educação do único filho, aquela maldita desgraçada? Sem um, nem o outro, a perderia também, uma semana após o enterro. Mas, nesse caso, não por morte. A morte ainda estava por vir. Afinal, um dia de cada vez.

|

Quer comentar?

Campos necessários *

*
*