Papo cabeçudo sobre o sistema educacional

Numa dessas manhãs, sentei-me junto à janela, apesar de ser dos destinados aos idosos, gestantes e deficientes. Não estava cheio o ônibus, assim tudo bem. Ao meu lado, alguns pontos depois, sentou-se uma senhora de cabelos brancos, coque, óculos. E não levou um minuto até me perguntar se eu era estudante, cursando o que e me dizer que bom, há muitos anos havia sido professora de português.

Eu tinha às mãos a Paidéia, livro de Werner Jaeger [1]. O tema é a formação do homem grego, mais especificamente a educação daquela sociedade, mais ainda sua cultura. E nem preciso dizer o quanto tais conceitos diferem, obviamente, dos nossos. Um pulo ali no XVIII e as diferenças já são enormes.

Ela entendeu do que se tratava, mas nunca havia lido os gregos, sequer um daqueles do famoso trio de filósofos. Mas se interessou pelo assunto e me levou até a década de 50, quando dava aulas para “os pequenos”. Estou mentindo, pois antes disso me contou, com orgulho, que o avô paterno fora um dos fundadores da Deutsche Schule (Colégio Progresso), em Curitiba, 1869.

Explicou-me que o método de ensino (ela não falou em didática) podia ser precário, se comparado ao de hoje em dia, mas o foco da educação era as necessidades do ser humano. Fossem individuais ou da coletividade, essas necessidades eram cobradas da existência, e o humanismo representava o vértice entre as pessoas. Era como ela ensinava aos pequenos aquela história de que o direito de um vai até onde começa o do outro, basicamente. E que o conhecimento não servia para nada, se a única intenção fosse torná-lo utilitário. Breve silêncio.

Aproveitei a oportunidade e trouxe a voz de um terceiro. Nós somos educados para nos tornarmos melhores trabalhadores, eu disse, e não pensadores criativos. O sistema educacional está todo voltado para o mercado de trabalho e a universidade representa, ainda que idealmente, o último degrau entre a vida estudantil e o cidadão adulto, que terá uma família, emprego e condições dignas de vida. Porém, este sistema está falido, porque.

Muito bem, ela disse, mas tenho de descer. Infelizmente, a senhora havia tomado o ônibus pra evitar oito quadras, dois pontos a frente. Durou menos de cinco minutos, mas fomos do XXI ao V a.C..

O que me traz ao tema da palestra de Ken Robinson, intitulada “Escolas matam a criatividade?” Pois após assisti-la, via TED Conferences, fiquei ainda mais inquieto. Não apenas ele resume o que eu também penso a respeito da vida acadêmica, como apresenta com bom humor o porquê da única esperança para o chamado futuro melhor (sem aspas, por favor) ser as crianças. E elas através da educação. Que clichê, não é? Pois eu lhe digo que não há tecnologia, ecologia, qualquer outra gia que ofereça melhor alternativa para esse futuro. E eu arrisco dizer que desde o primário lá do Colégio Progresso, no século XIX, as gerações vêm ouvindo falarem nesse clichê.

Em síntese, Robinson expõe o quanto o sistema educacional universal está pautado por valores que mais contribuem para afastar-nos de uma vida melhor, do que para nos aproximar de uma felicidade mediante realizações. Quantos clichês, meu deus! Ele toca em pontos importantes que não apenas dizem respeito a esse sistema, eu avalio. E acrescento. Pois considero, também, que tais pontos têm profunda relação com o modo como tratamos nossas capacidades, seja relativo a talentos que possamos possuir, seja em relação ao modo como encaramos o chamado progresso, material ou espiritual.

Influenciados por um momento histórico que ainda enxerga o Positivismo no encalço, possui o método científico ditando regras e condutas, das mais explícitas às sorrateiramente veladas, e com o modo de pensamento atual dirigido tecnicista e teleologicamente, o resultado disso cabe perfeitamente na figura que o inglês desenha a respeito: nossos corpos servem de veículo para nossas cabeças; mais especificamente, para um dos hemisférios do cérebro. E isto é só uma figura-consequência, dentro da trama toda das personagens dessa história.

Impossível você não se identificar com algum ponto do que ele diz, em apenas vinte minutos. Por exemplo, a falta de coragem para encarar o erro de um risco assumido, que revelaria mais a possibilidade de uma idéia original que o buraco negro do impossível. Estigmatizamos de tal maneira essa possibilidade de erro, que ela se tornou um paradigma. Sequer ousamos errar, pois paramos antes na possibilidade de encontrá-lo, reservando-nos, portanto, um cercadinho próprio no lugar comum, onde as pessoas se sentem confortáveis por estarem em terra firme, mas intimamente insatisfeitas por não explorarem o mar aberto.

O século XIX, aquele do Colégio Progresso, viu o nascimento do sistema educacional vindo para suprir as necessidades do industrialismo, nos diz Robinson. Digamos que no estatuto interno do regimento desse sistema, teríamos: 1) Os assuntos mais relevantes ao trabalho terão prioridade de ensino e 2) O objetivo do estudante é entrar na Universidade e ser preparado para o mercado. É como o sistema educacional se tornou um processo de admissão às universidades, segundo o inglês, e esse processo configura, ao final, nossa noção de inteligência. E ele vai além, falando da inflação acadêmica e suas consequências. Não comentarei isso, mas parto agora para a idéia de inteligência comentada por ele, a qual é pautada por essa hierarquia acadêmica e tem nos professores, ou mentes pensantes da Academia, o ápice da escala.

Até quando seguiremos esse modelo de configuração da inteligência, essa imagem que criamos dela? Agora, você se vê sem alternativas e considera que a inteligência vai por aí mesmo, mesmo porque desde os primeiros anos de sua formação, inteligente era o fulaninho que se dava bem nas aulas, tirava as notas mais altas! Ele propõe três diferentes modos de enxergar a inteligência, através dos quais, quem sabe, você passe a considerá-la mais do que e diferente de apenas uma hierarquia ou um sistema de arrecadação, seja de diplomas e notas, ou então de aquisição de conhecimentos: 1) diversidade, 2) dinamismo e 3) distinção. Quer saber como? Assista e pense a respeito.

O futuro melhor, referido acima, todos sabemos bem que se concentra latente na geração que sempre está por vir. Olhamos para nossos irmãos menores, nossos filhos pequenos ou para aqueles que desejamos ter e pensamos no tal futuro, mas o que fazemos de fato por ele? Que papo chato, não é? Permitimos que o sistema educacional pilhe não apenas nossas mentes, mas o vemos pilhar a mente dos “pequenos”. E não fazemos nada, pois perdemos o senso de preservação. O ser humano se tornou imediatista, um ser incapaz de prever alguns anos a frente ou, ao menos, se prevenir ou pensar em médio prazo.

Se há uma ecologia humana possível, faltam seres humanos capazes de enxergá-la como necessária. Na verdade, sequer enxergá-la é fácil, pois por sorrateiro que seu inimigo é, vai dilacerando e corroendo nossas bases, apresentando os efeitos nas consequências que enxergamos na natureza, na sociedade, no mundo em geral, mas não conseguimos prever de onde surgem, pois utilizamos aquele hemisfério do cérebro para pensar em soluções apenas imediatas ou então questões de maior relevância intelectual. É difícil enxergar a falência de nossas mentes pensantes?

Por fim, termino com as palavras finais, e clichezonas, veja bem você, de Sir Robinson, mesmo porque muitas das idéias aqui são dele. “Ter cuidado para usar o dom da imaginação humana, encarar nossa capacidade criativa com a riqueza que possuem e enxergar nossas crianças como a esperança que representam. E nossa tarefa é educá-las em todo seu ser, para que possam enfrentar o futuro, que não veremos, mas elas sim, e tirar algo bom dele.”

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TED Conferences
Fevereiro de 2006. Monterrey, Califórnia.

Para assistir o video com legendas em português, eu os postei aqui.
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Sobre Ken Robinson

Você pode conhecê-lo melhor, através do site. Ou então, segui-lo via twitter, pois esse mês ele apareceu por lá.

Livros

The Element: How Finding Your Passion Changes Everything” (2009)
Out of Our Minds: Learning to be Creative“, (2001)
The Arts in Schools: Principles, Practice and Provision“, (Paperback, 1982)

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notas:
  1. sobre o qual comentei aqui []

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Um comentário

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    Postado 16/03/2009 às 15:55 | Link

    Vou te mandar por mail a dissertação de mestrado do Marco. É sobre educação através do design…

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  1. […] Pedroso</a> Skip to content Sobre o N.P. « Papo cabeçudo sobre o sistema educacional, Denis Pedroso Para entender a internet […]

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