Mulher em chamas,
Dalton Trevisan

Um dia tão bonito, o sol radioso, melhor gozá-lo na praia. A sogra sugeriu que a filha dirigisse, muito distraído ele, avançava sinal, invadia a contramão.

– Não admito – protestou João. – Na minha casa quem manda sou eu.

As crianças rebolaram na areia, os dois boiavam na tranqüila água verde – essa pança é uma vergonha, João! – e, casados havia sete anos, mergulhavam de olho aberto para se beijarem debaixo d’água. Uma delícia o empadão de palmito e galinha com farofa, aos grandes goles de cerveja bem gelada. À sombra do carro amarelo cochilavam – um marulhinho em surdina na barriga, a comichão da água salgada na pele branca -, ofuscados pelo imenso bicho ofegante, a língua de espuma fervendo na areia.

– Olhe um avião – o grito de susto da moça, o braço estendido. – Um avião caiu no mar!

O grande avião dourado precipitava-se em chamas na piscina azul.

– Desculpe, meu bem.

Sonho ou miragem? Nada de avião, uma simples gaivota. Do mormaço ou dos copos de cerveja, João queixou-se da cabeça, com pressa de voltar. O sol faiscava no espelho sem ondas, ardia no brasido da areia, reverberava na nuvem branca sobre o asfalto.

Uma gota de suor escorria na longa perna nua:

– Se a gente esperasse a fresca…- ela ronronou, cheia de preguiça.

– A estrada será um inferno de mil carros.

Os bancos de couro abrasados, desceram todas as vidraças e, com último olhar para a água fresquinha, partiram. Sonolenta, ela cochilava com o guri no colo, as duas meninas enrodilhadas no banco traseiro. Na serra João a acordaria para vigiar as curvas. Logo ela dormia com o piá febril nos braços – sol demais na cabeça. Três da tarde, o carro avançava no incêndio negro do asfalto.

A longa reta deserta, João baixava as pálpebras, asas de fogo tatalando no céu e, quando percebeu, o calhambeque saía da estrada. Pisou com tanta violência no freio que as portas se abriram e as meninas forma cuspidas. Só não esmagou o peito porque, agarrado ferozmente à direção, e sendo o carro antigo, a barra enterrou-se entre os pedais. E a moça, sem largar o filho, caiu de costas numa pedra.

As crianças gritando e correndo ensanguentadas, Maria quis erguer-se para acudi-las. Apalpou as pernas – inteiras, perfeitas -, não sentia as pernas. Sentada ali no chão, não se sentia sentada. Rodearam-na vozes confusas, nos braços de alguém conduzida ao hospital.

– Trauma – explicou o médico de óculos e máscara.

Em choque, ouvia os comentários:

– A coluna esmagada…Operação, não resiste, Inválida. O resto dos dias…

A porta sacudida de uivos medonhos – era o marido.

– Estou morrendo… – ela queria se agarrar sem poder. – Em chamas… vou explodir…

O avião dourado caindo em chamas era ela que aspirou o éter e perdeu a consciência.

Não morreu, suportou a operação e mais outra, a terceira e mais uma quarta, além de hemorragia interna, de broncopneumonia, da flebite.

Primeiros dias rodeada pela família, parentes vinham de longe visitá-la e, como afinal não morria e passavam-se os meses, aos poucos esquecida no seu cantinho, ao lado da janela: uma entrevada a mais.

De repente o prurido no pé – e por que no esquerdo? Insensível da cintura para baixo – pobre cambito da bruxa de pano foi a coxa poderosa da campeã de tênis -, por que a insofrida coceira? Lá no jardim os gritos dos filhos brincando ao sol. O marido, esse, por onde andará? Quanto tempo a culpa o defenderia de se consolar com outra?

Dobrou-se para coçar o maldito pé e o novelo de lã rolou no tapete – já não poderia apanhá-lo. Chamar a criada era antecipar uma injeção de dois comprimidos. Melhor escondesse as lágrimas, cadela de perna estropiada – escorregando da cadeira, arrastar-se no tapete, rastejar pela rampa e, no meio da rua, debaixo das rodas do primeiro caminhão?

Inclinou-se no braço da odiosa cadeira: com a ferida do cotovelo sentia-se sentada (ao ser estendida na cama, pesando sobre o ombro dolorido, sabia-se deitada). Embora sofresse as mesmas dores, à noite entorpecida pelas drogas, ninguém a visitava. Dando tempo à progressão da paralisia, tudo faziam para esquecê-la.

– Ela está bem – recomendou o doutor à família. – O certo é não mimá-la.

Manobrou a cadeira diante do grande espelho oval: o rosto ainda lindo, o busto soberbo, mulher já não era, objeto de piedade, nojo ou ridículo.

A moça trêmula no espelho devolveu-lhe o sorriso. Nem sonho nem miragem: a praia no domingo de verão, ali na pele o arrepio da água salgada. De volta na tarde tranqüila, a estrada deserta, o céu brilhante de calor. Feliz é um avião dourado pairando sobre as aflições do mundo. Bem acordada – cotovelo esfolado, ombro em chaga viva -, jura a si mesma que não adormecerá. Aperta o filho nos braços enquanto o carro avança mais depressa pela estrada faiscante de sol.

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